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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Conspiração silenciosa em papéis velhos

Achei. Achei não sei com que idade, mas estava na papelada que tinha ideias que cabiam numa folha A4, frente e costas, amarelecida pelo tempo, moribunda ... Trago-a hoje à ruadojardim7 não para lhe fazer uma espécie de boca a boca, mas para a oferecer à imaginação alheia que daqui se possa aproximar - sem medo dos olhares de uma qualquer secreta ...

- Chega ao aeroporto da Portela, de manhã, vindo de Nova Iorque. Vai direito ao escritório. É esperado pelo motorista. Beija à pressa a mulher e o filho.

- Sai do carro à porta de um imponente edifício da avenida da República, em Lisboa. O porteiro liga para o contínuo a comunicar o facto. A secretária é avisada. Consta que chegou: os contínuos avisam-se. Os directores perfilam-se e alinham papéis. "Chegou!"

- De manhã não vai receber ninguém. Lerá correio. Analisará propostas. Consultará a imprensa. Despachará com a secretária. "Não estou para ninguém!"

- O gabinete é forrado a chumbo e tem televisão para o exterior: domina visualmente a entrada do gabinete e respectivos acessos principais. Pode assim ter uma visão global dos diferentes serviços. O seu espaço é separado do da secretária pelo espelho (vidro duplo) que lhe permite "ver tudo" ...

- Reforça o não atendimento com o botão vermelho de OCUPADO. Fica anacessivel. Está prevista a análise dos aumentos do pessoal que não acontece "por falta de tempo..." Faz constar.

- À tarde, vai a uma reunião de trabalho com os colegas da administração. No dia seguinte, partirá de novo. Agora para S. Paulo.

- Entretanto, morre. Ou melhor: é encontrado morto.  Descrever a propósito o que se disse nos corredores, "à boca pequena": telefonista, pessoal menor e outro.Referir o que  os eventuais sucessores disseram à chucha calada ...

- É levado para casa - em segredo.

- Dá entrada no Purgatório. Não vai direito a S. Pedro, muito menos a S. Paulo (cidade).

- Tiram-lhe mal as medidas para a urna. Não cabe. É coxo. Disfarçava.

- No mesmo dia morre também um contínuo da empresa. Que vai para a capela mortuária ao lado da do ex-patrão.

- Troca de carros funerários e consequente preparativos: contínuo para um jazigo e patrão para enterrar. O que só se descobre quando se pretende abrir o que vai para a cova e se vê um caixão de chumbo.

Nota de rodapé: este projecto/grito de "discurso" foi abortado pela censura de que se falava à data desta espécie de borrão ...




quinta-feira, 24 de abril de 2014

A última entrevista a Salazar

Entrevistadora: Maria de Lourdes Brandão
Entrevistado: Oliveira Salazar
Publicação: semanário português O País, 
de 31 de Março de 1983 (Biblioteca Nacional)















- O senhor disse-me noutro dia que os portugueses tinham instalado em cada terra onde chegaram um pedaço de Portugal. Pode dizer-me como o fizeram?

- Com muito trabalho e dedicação, misturando-se com as populações locais, levando-as para o seio das suas famílias. Fazendo esses povos viverem no seio da família portuguesa. Portanto, é natural que o português se fale mais seriamente do que uma língua aprendida na escola, porque é uma língua aprendida na vida, com a família, com os amigos. E assim como foi com a língua, os costumes, as tradições, a "maneira de viver", transmitiram-se facilmente de uns para outros.


- Por isso é que o senhor acha que Portugal conseguiu esses resultados em todos os países para onde houve emigração?


- De facto, Portugal conseguiu isso. Mais ainda, na África e no Brasil. Olhe este exemplo: há tempos, os Estados Unidos mandaram uns industriais para a África a fim de estudarem assuntos relacionados com a pesca. Eles possuem uma indústria de pesca enorme e com uma extraordinária clientela espalhada pelo mundo. Simplesmente, não têm peixe para abastecer essa clientela. E então apareceram-lhes as nossas costas de África, ricas de peixe. É uma riqueza extraordinária, o peixe das nossas costas de Angola. E de que se lembram eles? De utilizar a nossa África - Angola - como país abastecedor de matéria-prima para a sua indústria de peixe.


Quando lá foram esse senhores altamente colocados na indústria dos Estados Unidos e por lá andaram a ver o que haviam de comprar, onde se haviam de abastecer, é que viram a riqueza daquelas terras.


Eu achei curioso e fez-me sorrir a inocência e o primarismo daqueles homens que pensavam que quando nós dizíamos que temos cidades portuguesas na África, nos referimos a uma porção de palhotas de negros, cercadas com arame farpado para não se entrar ali, com um pau no meio para se içar a bandeira portuguesa! E pronto: aquilo era uma cidade portuguesa.


Mas chegaram e a sua estupefacção foi formidável, quando viram que aquilo eram cidades autenticamente portuguesas, mas implantadas ali como são implantadas no Brasil e no Oriente. Todas autenticamente portuguesas. Quer dizer: aquela gente tem a religião de Portugal, fala a língua de Portugal, tem a maneira de viver de Portugal. Porque a colónia portuguesa é de molde a influenciar as reacções das pessoas, em face da vida. É igual em todas as partes onde o português chegou e se estabeleceu.


- É isso mesmo ...


- Isso aconteceu também no Brasil.Veja quando se fala no Brasil não se vê um país americano, mas simplesmente um país europeu implantado em pleno seio da América. Isso é que é interessante e é o distingue a colonização portuguesa de qualquer outra.


- É verdade ... Foi esse espírito que realizou o milagre da unidade brasileira, evitando que o Brasil se transformasse, como o resto da América do Sul, numa colcha de retalhos...


- Portugal, sendo realmente um país pequeno, tem a visão grande, talha em grande. Chegou à América e talhou em grande o Brasil. E quando, pela evolução histórica desses territórios, eles se tornam independentes, é um todo grande que se torna independente, com todos os seus valores de projecção internacional.


É nisto que tem que se atentar, quando se criticam os portugueses e a sua obra. Porque não se pode atender a tudo e os portugueses dão mais valor às coisas de ordem espiritual. Por exemplo: a língua, a religião, a forma de viver. Há tanta forma de civilização! Nós levamos a nossa. Nós não inventamos uma civilização; o que fomos, é educados numa civilização latina e cristã. E transplantamo-la para onde vamos. Levamos aquilo como herança nossa, transmitimo-la aos outros e eles depois transmitem-na de uns para os outros.


A civilização, nós a transplantamos mais pura do que outros povos, que a adulteram um pouco, pela sua própria maneira de ser. Adulteram-na, por exemplo, os povos do Norte, que são mais materialistas e levam consigo esse materialismo.


- Graças a Deus, os portugueses não são assim ...

- Portugal vai com o seu sonho, a sua mística, com a generosidade e fraternidade dos seus sentimentos.


- O povo português é muito bom!


- E é isso que é importante. O português emigrante chega a uma terra estranha, instala-se e vive ali como vivia no seu país. Portanto, aquilo fica um bocadinho de Portugal implantado noutro meio.


- Brasil e Portugal formam realmente uma Pátria, quer dizer, são dois países, mas é tanta coisa que os une, que os milhares de portugueses que vivem no Brasil gostariam de ter os mesmos direitos dos brasileiros e que Portugal desse também reciprocidade aos brasileiros que vivem cá. Quer dizer, formaríamos uma comunidade ligada pela língua, pela cultura, pelas tradições. O senhor acha que isso será possível?


- Sim, poderá, pela evolução das coisas. Havia mesmo de ser difícil ter relações amigáveis com o Brasil se não se desse a essa amizade um  realismo traduzido numa comunidade de direitos das pessoas.


- O senhor disse-me, no outro dia em que conversámos, que Portugal (europeu e africano) e Brasil, formavam a maior comunidade do mundo, unidos pela mesma língua. Eu só lamento é que o senhor nunca tivesse querido ir ao Brasil. Mas o senhor só gosta de trabalhar ... trabalhar ... trabalhar ... Nunca arranjou tempo para passear um bocadinho, pois não? O senhor podia ter ido ver os portugueses radicados, que eles gostam tanto de si ... Teria sido uma grande alegria para todos ...


- Talvez sim ... (e ele ri muito com as minhas palavras).


- Talvez sim ... Mas o senhor nunca lá foi!


- Mas o meu coração está lá ... (ele continua a rir, mas já comovido, beija-me as mãos).


- Ao menos um bocadinho está no Brasil, não está? Posso escrever isso?

- (Já sério). Escreva ... e diga que está também em África ... E em todos os lugares onde existe um português ...


- Sobre as províncias africanas, o senhor já outro dia me disse muita coisa que me impressionou profundamente. Eu não conheço o Portugal africano, mas todos me dizem que lá estão a ser construídos hospitais, escolas, barragens, estradas, que tudo aquilo está a transformar-se num país moderno...


- Há-de um dia ir lá!...


- Gostaria muito ... E se Deus quiser, irei um dia. Se eu ficar por aqui é mais fácil, porque no Brasil trabalho muito. Mas quando estou em Portugal não me apetece sair daqui ... Quero matar saudades da minha família, ficar junto do meu pai, comer bacalhau, beber vinho ... O senhor sabe que engordei uns quilinhos desde que cheguei? Porque adoro bacalhau ... E acho que não há comida melhor do que a portuguesa ... E o senhor? Qual é a comidinha que mais gosta? Conte que isso não digo a ninguém ...


(ele riu muito, achando engraçada a pergunta e a minha maneira de falar). Responde:


- Pois eu aprecio todas as nossas comidas. Gosto de tudo, mas também prefiro bacalhau...


- Sabe? O prato que eu mais gosto é bacalhau assado na brasa e broa. Broa ... acho que o senhor não sabe o que é. É um pão que se come em Braga, é mais conhecido no Minho.


- Eu sei muito bem o que é. É um produto do milho.


- Mas aqui em Lisboa não gostam, e eu fico triste, porque não encontro broa para comer ...


- Eu também gosto muito e é um castigo para arranjar broa para mim. Tenho de esperar que me mandem da minha aldeia ...


- Pois é. Os lisboetas não querem engordar, por isso não comem broa, mas não sabem o que perdem.


Agora outro assunto: que mundo o senhor gostaria de deixar aos jovens? Primeiro, pensando em Portugal, com a graça de Deus ...

- E também com muito trabalhinho que a gente tem ...


- Eu sei ...

- O mundo está desequilibrado e enlouquecido. Ninguém se entende, aí por fora ... Mas não me admiro com isso, porque se deram nos últimos anos evoluções tão rápidas em vários domínios que fizeram perder a cabeça dos homens. Veja, por exemplo, a bomba atómica e as viagens interplanetárias.


- O que me diz sobre a ida do homem à Lua?


- Acho que estamos a criar, com essas explorações lunares que não valem absolutamente nada para a paz, um germe para futuras guerras. Aquilo é um posto de observação extraordinário para devassar os grandes espaços terrestres, como a China, a Rússia, os Estados Unidos. Ora bem, quando a China tiver a percepção perfeita, completa, de que está a ser observada dum cantinho da Lua, onde ela não pode ir, porque não sabe, sem poder evitar de ser devassada e sem poder fazer a outros o que os outros lhe fazem, colocará  o problema internacionalmente.


É uma coisa espantosa os conhecimentos que permitem aos sábios fazer um veículo que vai daqui até à Lua, sabendo-se rigorosamente a hora, o dia e o minuto em que lá chegam e depois, o retorno, também o dia, a hora e o minuto em que podem cair no Pacífico, no sítio tal, com diferenças mínimas.

Eu tenho muito medo que isto envaideça de tal maneira os norte-americanos, que eles pensem que tendo aquilo, têm tudo e não têm. Tem, apenas, um ponto de observação. Mas, em todo o caso, não temos de concordar que a inteligência humana é qualquer coisa de fantástico, de extraordinário, para poder fazer as descobertas e os estudos necessários que permitem realizar essas viagens. É claro que os homens não fazem lá coisa nenhuma.

Neste momento D. Maria Jesus interrompeu-nos porque tinha chegado o fotógrafo, que nos tirou algumas fotos e se retirou com ela.

A conversa com Salazar continuou.

- Agora outra coisa senhor Presidente. O senhor sabe que nestes últimos anos diminuiu consideravelmente a emigração portuguesa para o Brasil. As razões apresentadas são que o cruzeiro vale pouco, em comparação com o escudo, a distância é muito grande e as passagens entre os dois países são caras. Por isso os portugueses que querem emigrar agora, ou vão para o Ultramar ou para a França, ou para a Alemanha.

O que eu tenho medo é daqui a alguns anos a colónia portuguesa do Brasil desapareça, porque restarão só os filhos dos portugueses, que já são brasileiros. De que maneira acha que se poderia incentivar de novo essa emigração ou, se isso não for possível, pelo menos preservar todos os laços que unem Portugal ao Brasil através da colónia portuguesa, que é constituída por milhares de pessoas que trabalham e vivem lá, mas adoram Portugal?

- O problema da emigração portuguesa actualmente é difícil de resolver, porque os países europeus estão fazendo uma grande reforma nos usos industriais que exigem uma incorporação de mão-de-obra de que eles não dispõem, porque aquela com que contam reservam-na para futuras operações militares e educam essa gente nos campos do respectivo treino, não a desperdiçando. Por outro lado, a mão-de-obra é muito barata, e como eles, nos seus interesses, deixaram elevar os salários a alturas incomportáveis, que nós não podemos pagar, não podemos contrariar a emigração pagando o mesmo que paga a Alemanha ou a França.

De forma que o problema tem de ser tratado de dois lados: primeiro, do país que recebe os emigrantes. Compreendo que é um problema muitíssimo difícil, porque não podem dispensar os imigrantes, sobretudo o imigrante do país pobre, do país que não paga tanto como eles pagam. Esses homens deixaram-se ir no entusiasmo do desenvolvimento das suas industrias, para chegarem a esta situação de darem trabalho a pessoas de países pobres. Então atraem os nossos emigrantes ... E estão lá a  trabalhar, nestes tempos, uns milhares de pessoas, tanto na França como na Alemanha.

Eu vejo essa emigração sem grande entusiasmo, apesar de que todos voltam a Portugal já com um automovelzito ...

- Até lhes chamam os "vacanças" ...

- Eles vêm por aí a baixo com o seu automovelzito, mas aquilo não vale grande coisa. Mesmo que um ou outro possa aprender por lá uma arte ou ofício, sobretudo na metalurgia, pouco adianta, embora façam lá operários de simples trabalhadores dos campos ...

- Acha que isso não se pode impedir porque as condições que lhes oferecem são melhores, mais vantajosas?

- Não se pode impedir que o português procure melhores condições de vida, em países onde lhes dizem: - Vinde para aqui, você tem isto, tem aquilo. O problema, no entanto, não tem sido bem tratado, porque aqui mesmo se abandonou um pouco a situação do português no estrangeiro.

- Bem. Agora só queria que dissesse ... 


E Salazar não chegou a dizer mais nada porque, naquele momento, ruídos e vozes, como se pessoas estivessem a discutir, chegaram até nós. Calámo-nos.

As vozes continuaram a ouvir-se, mais altas. E uma criada veio a correr a dizer-me que a senhora pedia para sair imediatamente porque o fotógrafo tinha sido interceptado. Tirei a "cassete" do gravador, peguei no meu casaco, beijei Salazar e disse-lhe: obrigada ... Se puder, volto ...

Ele  acenou com a cabeça, silencioso, e eu segui a criada por um corredor muita assustada. Andámos imenso, descemos escadas interiores e cheguei a uma portinha lateral. Saí.

No dia seguinte fui informada que era melhor deixar o hotel onde me hospedava, em Lisboa, pois a PIDE tinha descoberto que eu era jornalista e queria divulgar notícias e coisas sobre Salazar. O fotógrafo que nos tirou as fotos fora apanhado e estava preso. A máquina tinha desaparecido e eu resolvi fazer o mesmo, por uns tempos ... Voltei para Braga, para casa de meu pai, até tudo se acalmar. Depois, tentei em vão que esta entrevista fosse publicada, mas tanto aqui como no Brasil, altos poderes se levantaram sempre, para impedir. Só depois de Salazar ter morrido é que estas últimas palavras foram lidas (...)."




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Papéis velhos de velhos tempos ...

Quem guarda acha e, às vezes, acha o que, anos depois, já não se lembra mesmo. Não é o caso. É o recorte de um jornal escolar (O Aqueduto) de Elvas que me conduz a uma resposta que, pelos modos, virou inesquecível.

Eu conto: empregado no Diário de Notícias e casado de fresco fui, por isso mesmo, pedir aumento de ordenado ao novo administrador do jornal. Normal, digo eu. Só que o Dr. Andrade Lopes, que até era um senhor simpático, deu-me uma resposta inesquecível:

"... a sua mulher trabalha? ...

- Agora, só em casa ...

- Então, porque é que não ..." (não terão sido estas as palavras, mas o sentido, inequívoco, foi fugir ...)

Lembro-o aqui, porque ... porque sim ... Ao cuidado das centrais sindicais, sem efeitos retroactivos, claro. Mas para os devidos efeitos ... Com uma breve biografia do ex-administrador do DN, que já lá está ... E, justiça se lhe faça, foi depois mentor e entusiasta de um Serviço de Saúde para os trabalhadores da ENP, proprietária do jornal. Que também não é esquecível...

Entretanto, o Dr. Andrade Lopes, tal como um jornal escolar da sua terra o "viu":
























... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...















































sábado, 31 de agosto de 2013

De vez em quando ...

De vez em quando vou-me aos clássicos para do lido, sacar o sublinhado. Com interesse, sem interesse de quem aqui entra? Não sei. O que sei é que, nestes tempos de leitura rápida, ou mesmo de nenhuma leitura (nunca houve tantos meios a tentar ocupar o seu lugar ...), é preciso que algumas ideias (simples) regressem à primeira linha das mentes afogadas, por exemplo, de comunicados que anulam comunicados, de televisões que contradizem televisões, de rádios que, localmente, se degladiam com fins comerciais, etc

Regressemos ao simples:

D. Francisco Manuel de Melo (1650), in Carta de Guia de Casados 

"(...) não basta plantar a murta no jardim, por de melhor casta que seja; para que o adorne faça figuras e lavores agradáveis é necessário torcer-lhes às vezes os caminhos, e outras cortar-lhes as vergônteas; e contudo nada aproveita se perpetuamente o jardineiro a não tosa e cultiva, porque viceja muito."


domingo, 28 de julho de 2013

Recortes da saudade de Amália e de Paredes

Falam os registos da saudade: Amália nasceu no dia 23 de Julho e Paredes faleceu no dia ... 23 de Julho. Vamos lembrar a data, ainda que com cinco dias de atraso. Graças às relíquias que, de vez em quando, descubro nos meus papéis velhos.

De uma entrevista a Amália Rodrigues publicada em 21 de Dezembro de 1989 na OLÁ

"... ... ... ... ... ... ... ... 

A minha maior qualidade é não saber que tenho qualidades.

O que mais detesto é a mentira.

Chamam vício a beber, não bebo. Chamam vício a fumar, já não fumo.

A música de que mais gosto é toda a música árabe, flamenco e fado. Mas gosto também da música brasileira antiga e da lambada.

Gostaria de ser Maria Callas. Sou fadista por condição.

A primeira paixão foi cantar, depois foi Salazar, quando tinha 13 anos. Era o meu Principe encantado. Era importante, era bonito, era inteligente, era tudo ..."


De uma conversa com Carlos Paredes publicada em 9 de Setembro de 1989  na OLÁ

" ... ... ... ... ... ... ... ... 

Tive variadíssimas paixões, mas a grande paixão de sempre é a guitarra portuguesa.

A simplicidade põe-nos, às vezes, em contacto com a parte mais rica das coisas. A minha música também é simples.

Todos nós desejamos ser conhecidos e apreciados pelas pessoas que nos rodeiam. A fama traduz-se no facto de haver pessoas que nos cumprimentam na rua, porque nos ouviram tocar e gostam. A fama é aquilo que nos permite multiplicar o número de amigos.

Fujo de sonhos loucos. Desejaria poder equilibrar as minhas aspirações com os meios de as realizar.

Há um mundo comum, embora existam formas diferentes de o captar. E é isso que faz com que o artista genial, seja escritor, músico, pintor, não esteja completamente isolado do resto do mundo. Existe um espaço em que todas as pessoas se entendem, em que amam as mesmas coisas. Somente um exprime essa coisa de forma mais elevada. Assim se compreende também uma certa relação entre a música e os músicos de várias partes do mundo.

O fado é uma música injustamente atacada ao longo dos anos. Conheço fadistas que através do fado falam do dia-a-dia das pessoas. Os fados são documentos sociológicos impressionantes. Temos o exemplo de Maria Alice, que vendeu milhares de discos, que traduziam as suas preocupações de ordem social e humana. O fado nos seus tempos áureos seria uma forma de imprensa popular."


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Apontanetos: rever a Invicta *


























Nado e criado em Lisboa, filho do Tejo, de Alfama e também da Madragoa e Bairros Altos que embriagaram gerações de alfacinhas e passantes, é ao Porto que vou revigorar o espírito lusíada que me resta. Desembarcado no centro da cidade dirijo-me então para os Clérigos e meto-me, invariavelmente, pela rua de S. Bento da Vitória. Detenho-me por ali a olhar a roupa estendida e os prédios espigados, de convívio obrigatório, encostados uns aos outros como que receosos das camarárias incúrias, sem chetas locais que bastem para avenidas, quanto mais para coisas velhas.

Encosto-me à parede da igreja de S. Bento da Vitória e, não sei porquê, parece-me ouvir, por sobre os falares gritados do mulheredo, as vozes de Camilo e Júlio Dinis. Sonho acordado. De seguida, deixo-me escorregar pelas escadas da Vitória onde alguém pragueja às moscas que lhe invadem o aconchego, abandonado que foi o bailarico sobre detritos sem data. Aqui é preciso cuidado ao passar, que os degraus são já de outras épocas, a corrosão do tempo não perdoa e as edilidades são mais lentas nas reparações do que os sapatos dos utentes no seu incessante e implacável pisar. Encontro-me agora no largo de S. Domingos, Douro à vista. Falam alto as pedras, enquanto o rio, carícia após carícia, procura, com meiguice, impor silêncio. Julgo ouvir, entretanto, à beira do Muro dos Bacalhoeiros, o vozear de mercadores.

"Ceuta?..." Engano-me. É a história que aprendi em pequeno que me segreda coisas de encantar.

Vagueio, ébrio de emoções e volto as costas ao Douro. Meto-me pela rua da Alfândega, depois de uma breve conversa a sós com a Senhora do Ó. É sábado. Quero confraternizar com o Infante, mas dizem-me que não posso, que essa coisa de convívio histórico é de segunda a sexta, que os senhores da Casa são de carne e osso como os demais e foram descansar. Fico desolado com esta Cultura que repousa aos fins-de-semana e dou um salto ao Palácio da Bolsa, em que já não entrava há uma dezena de anos. Avanço dos Descobrimentos para o século XIX. Sorrio. Aquele é o Palácio da Bolsa não é o Mercado do Bolhão ("valha-me Nossa Senhora: eu só queria ganhar o que estou a perder ... Ó freguesia, olhai a lindeza!..."). Do outro lado da rua acabo de ver num interior o retrato a sépia, seráfico e salpicado nos bigodes de saudações mosqueiras, do fundador de um estabelecimento que o tribunal da actividade, certamente, ajudou a legar aos vindouros. Subo, por fim, a escadaria da Associação. Desfaço-me de vinte e cinco escudos para as despesas de manutenção e oiço, atento, as explicações do contínuo-guia. Deslumbro-me com Veloso Salgado e, de sala em sala, chego ao Salão Árabe. Uma maravilha! Este Porto!... "A riqueza dos povos é a sua Cultura" - acode-me a frase feita, enquanto me assalta a certeza da penúria quotidiana que nos avassala.

Entrementes ...

- A nossa salvação é que estas salas não têm rodas ... - murmura o meu anfitrião.

- Como? ... - interrogo, receoso.

- Sim! Se tivessem já não eram nossas ... - remata, com um misto de alívio e preocupação.

Finjo que não oiço e tomo um táxi para Campanhã, deixando invicta a cidade que sempre o foi. "Por não ter rodas", no dizer do contínuo-guia do seu Palácio da Bolsa - sem valores, que esses, no mínimo, têm pernas..."

* crónica publicada em 1983, num jornal de Lisboa, com outro título, naturalmente ...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Álbum do Mundo

Para o Joaquim (disse-me para o tratar assim ...)

Este é um dos muitos papéis velhos que tenho por aí nos escaninhos da casa ... Trago-o para a NET porque a NET é, simultâneamente, caixote do lixo e álbum do mundo ... Para o autor destas conversas fala de uma paróquia NOSSA, em Toronto. É, portanto, o testemunho vivo de um espaço que, se não existe, existiu e teve uma história - que faz parte da História dos Portugueses no Mundo.

Não se riam: andava eu, ontem, por exemplo, nestas andanças das coisas que, aparentemente, já não são, quando, aí do carrefour da Europa, lido um "post" da rua, me chega uma mensagem a dizer que "gostava de conhecer" o que houvesse, no caso, acerca de umas certas lusas andanças nos mares das Terras do Talvez ... Descobrimos, não descobrimos? Pedi licença a John Bull e lembrei eventuais pistas - que já fiz chegar ("pouco com pouco, faz muito ...").

"Na Natureza nada se perde ..." Fiquem com este papel velho - que pode um dia interessar, quanto mais não seja, para reconfirmar que Portugal esteve .
Boletim do Centro Paroquial Português de Toronto  (1978)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

- Como estão? Passaram bem? Eu ... Bom, eu ...

Minha Senhoras e meus Senhores


O desafio: juntem-se, os próprios, ou descendentes,e vão a S. Bento dizer,mais palavra menos palavra,o seguinte:



















ESTAMOS AQUI PARA DIZER A V.EXAS. QUE, A BEM DO PAÍS ONDE NASCEMOS E FIZEMOS FORTUNA,  QUEREMOS SER TRIBUTADOS EM MAIS  X, DE MODO QUE OS QUE NOS AJUDARAM A CHEGAR ONDE CHEGÁMOS POSSAM, NO MÍNIMO, RECEBER OS SUBSÍDIOS DE FÉRIAS E DE NATAL QUE LHES VÃO SER RETIRADOS EM 2012.

sábado, 27 de agosto de 2011

1973 - "Oposição Democrática" ( II )

"Reforma

O que é a reforma? Uma escola? Uma liberalidade do Governo? ou um direito que o trabalhador pagou enquanto trabalhou?

A maior parte das reformas que se pagam em Portugal não dão para os trabalhadores viver. Na altura em que precisa de descansar e distrair-se sem preocupações pelo dia de amanhã dão-lhe uma esmola, ou melhor, uma côdea em constante desvalorização devido ao aumento do custo de vida.

O lar de um filho mais generoso ou o biscato são a degradante solução final de milhares de homens e mulheres que por esse país fora, foram os produtores de riquezas, quantas delas fabulosas, das quais nunca beneficiaram nada.

Assim impõe-se:

- que a pensão de reforma seja igual ao ordenado do trabalhador quando activo;

- o seu aumento de acordo com as revisões salariais;

- que a idade de reforma seja efectiva aos 63 anos;

- que esse limite seja inferior nos seguintes casos: mulheres, padeiros, mineiros, pescadores, e outros trabalhadores, que pelas características das suas actividades estejam sujeitos a tarefas mais penosas ou desgastantes;

- a concessão de facilidades nos transportes e diversões;

- porque é uma necessidade de sobrevivência para muitos milhares de trabalhadores, devido ao aumento do custo de vida, é imperioso que se faça imediato aumento das pensões de reforma que estão a ser pagas."

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Jantar da Primavera

Macau, 3 de Março de 1980

Homenagem ao General Melo Egídio

 Macau, 1 de Março de 1980

1973 - "Oposição Democrática" ( I )

Cá ando eu no meio do "papéis velhos" ...

3º Congresso da Oposição Democrática (Aveiro 1973) - TESES

Das Teses, um ou dois apontamentos, sem comentários actuais:

Transportes públicos

Reivindicações
As nossas reivindicações mais importantes são:

- Salários entre 5 000$00 e 6 000$00.
- Passagem a mensal e 13º mês.
- 1 mês de férias com os respectivos subsídios de férias.
- Horas extraordinárias não obrigatórias e pagas a 50 e 100 por cento.
- Horários de trabalho compatíveis com as horas de refeição e descanso.
- Fardamentos que não prejudiquem a saúde nem ofendam a nossa dignidade. *
- Direito à greve.
- Feriado do 1º de Maio.

* reivindicação esquecida nas Conclusões - na página seguinte das Teses.

Das Conclusões:

1. O problema dos transportes públicos, só poderá ser resolvido no contexto de um regime representativo da vontade das massas trabalhadoras e das alargadas camadas da população, cujos interesses estão em directa oposição à ganância e prepotência dos grupos monopolistas nacionais e estrangeiros, aliados na exploração do Povo Português.

2. Tal resolução implica a nacionalização prévia da propriedade urbana, no sentido da sua colocação às necessidades da população, e não da sua entrega à rapina e ganância dos especuladores.

3. Só através de uma planificação urbana, ao serviço da colectividade, se poderá elaborar uma política de transportes eficazes, rápidos, económicos, pressupondo uma adequada política habitacional e económico-social, em geral.

4. Os transportes deveriam ser baratos, gratuitos a médio prazo (...)."


sábado, 20 de agosto de 2011

Os jornais de Macau e os cães de caça ...

Jornais de Macau - no meio de respeitáveis papéis velhos, que é assim que, genericamente, os considero. Com a vantagem de não saber, nem me interessar, que papel representam, ou representaram, no xadrez político e social do "seu tempo".

"Vai à NET que diz tudo ...", lembrar-me-ão os amigos.

"Peço desculpa, não é verdade! A orientação de um órgão de informação não se analisa assim ... Há, muitas vezes, uma subliminar maneira de ser e estar que talvez só com um TAC, um TAC especial, seja possível começar a perceber ..."

Uma coisa é certa: a história far-se-á com o que houver. E cada um deve dar o que pode, quanto mais não seja para se cumprir enquanto ... enquanto cão de caça ...


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sun Yat Sen ( III ) *

"(...) Durante o período de exílio, Sun exerce a sua actividade revolucionária fora da China, apesar da draconiana repressão exercida pelos Ching, a subversão espalha-se por quase toda a nação.

Xangai tornou-se o principal centro de propaganda revolucionária, conduzida por jovens intelectuais, cujas publicações, apesar de constantemente apreendidas pela polícia, continuavam a disseminar os ideais de revolta.

Como exemplo, o panfleto anti-Ching, muito influente, intitulado "Exército Revolucionário", aparecido em 1906. O seu autor, Tsou Tung morreu na prisão mas, o seu exemplo, constitui uma "bandeira".

Os intelectuais da província, muitas vezes liderados por estudantes vindos do Japão, também lograram constituir organizações revolucionárias.

Em Hunan, Huang Hsing (1874-1905) filho de um professor e mais tarde um dos mais importantes dirigentes revolucionários, fundou, em Dezembro de 1903 a "Hua Hsing Hui" (Sociedade para o Renascimento da China).

A "sociedade" planeou um levantamento contra o poder, com a ajuda das sociedade secretas, mas o empreendimento terminou por um fracasso total.

Os ideais revolucionários conquistavam cada vez mais adeptos nos estudantes chineses no Japão. E foi aí, sob a direcção de Sun Yat Sen, que se conseguiu a primeira tentativa de unir um número razoável de grupos de revolucionários até aí fragmentados."



* Biografia sumária publicada em 1985 na revista Nam Van, editada pelo Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau

Quem guarda, acha: Macau ( XIX )

Corridas de galgos

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sun Yat Sen ( II ) *

"(...) Com consequência, teve que passar os dezasseis anos seguintes no exílio com  a cabeça a prémio. (Apenas durante alguns dias, em 1907, Sun pôs o pé em solo chinês).


Foi precisamente durante este período que Sun se consagrou à conspiração profissional e emergiu como o principal líder do movimento revolucionário chinês.


Concentrou o seu trabalho político junto às comunidades chinesas imigradas, principalmente no Sudeste Asiático, Hawai e Estados Unidos.


Por volta de 1910 a diáspora chinesa rondaria os dois milhôes e meio de pessoas; a ajuda que lea ofereceu tanto em dinheiro como em homens foi de extrema importância.


Durante anos Sun Sen percorreu as comunidades chinesas imigradas, fazendo palestras, postulando teoria, fazendo todo um trabalho de consciencialização e recolhendo fundos, despertando os chineses para as necessidades da pátria.


Em 1896 os "Ching" raptaram-no em Londres; Sun foi salvo pelos seus amigos ingleses que conseguiram libertá-lo do seu cativeiro na legação chinesa - em particular a intervenção do dr. Cantlie, seu professor em Hong Kong, num incidente que o tornou famoso e lhe grangeou enorme prestígio."

* Biografia sumária publicada em 1985 na revista Nam Van,
 editada pelo Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau


Mesa de trabalho de Sun Sen. Numa breve visita à China, lembro-me de ter visitado um Museu (?)
próximo da então fronteira com Macau, que lhe era dedicado. Mas não me recordo de pormenores.
 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sun Yat Sen ( I ) *

"Filho de camponeses, nascido numa aldeia a sul de Kwangtung, estava destinado a tornar-se o principal ideólogo e líder da primeira fase do movimento moderno revolucionário chinês.


Nascido a 12 de Novembro de 1866, Sun Yat Sen (Sen Wen, Sun Chung-Shan) originário de uma região na qual as tradições do movimento Taiping eram fortes e exerceram certamente grande influência no seu pensamento.

Com a ajuda de um irmão mais velho (Hawai) completou a instrução secundária moderna a que se seguiram os estudos médicos em Hong Kong, que completou com distinção em 1892. O seu interesse pela política já se revelava nos tempos de estudante, mas até 1895 a sua defesa da modernização não excluía o reformismo: as alterações dentro de uma ordem pré-existente.


Com o fim de expulsar a dinastia Manchu - desistiu de uma lucrativa carreira médica, para se dedicar a este objectivo de uma vida.


A primeira iniciativa política de Sun Yat Sen foi o lançamento da "Hsing Chung Hui" (Associação para a Regeneração da China) cujo principal objectivo era organizar o levantamento anti-Ching em Kwangtung. (...)"

* Biografia sumária publicada em 1985 na revista Nam Van, editada pelo Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau.

Quem guarda, acha: Macau (XVIII)

Apesar de tudo, o óbvio: ninguém fez, até agora, qualquer observação negativa
 acerca da publicação destes "papéis velhos" sobre Macau.
Ainda bem: toda a gente terá percebido que, na sua simplicidade, de algum modo,
 são DOCUMENTOS irrepetíveis.
 Portugal presente!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

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