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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

RUY CINATTI, memória da sua presença nos corredores do JORNAL NOVO, em Lisboa














Quando o amor morrer dentro de ti, 
Caminha para o alto onde haja espaço, 
E com o silêncio outrora pressentido 
Molda em duas colunas os teus braços. 
Relembra a confusão dos pensamentos, 
E neles ateia o fogo adormecido 
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido 
Espalhou generoso aos quatro ventos. 
Aos que passarem dá-lhes o abrigo 
E o nocturno calor que se debruça 
Sobre as faces brilhantes de soluços. 
E se ninguém vier, ergue o sudário 
Que mil saudosas lágrimas velaram; 
Desfralda na tua alma o inventário 
Do templo onde a vida ora de bruços 
A Deus e aos sonhos que gelaram

terça-feira, 24 de março de 2015

Helberto Helder, sim!

Hoje, que partiu e vai ser cantado ...


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

António Aleixo a "3 Dimensões"

Segundo um jovem  
CERCI Lisboa-Espaço da Luz

































Segundo o lápis de um amigo





































No autógrafo de Miguel Torga

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Momento de Poesia

Por razões de ordem profissional, ia jurar que conheci o covilhanense, engenheiro têxtil, E. M. de Melo e Castro, mas não garanto. Na Wikipédia (de que raras vezes aqui se fala, no banco ao pé do coreto ...), diz-se, nomeadamente, que é pai da cantora Eugénia de Melo e Castro.  Entretanto, o que sei é que, em documentação caseira, fui encontrá-lo agora nestes preparos numa Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica:


INÉDITO


DELICADEZA


certa
certa
certa
certa
certa


Tesura


perda
perda
perda
perda
perda


Futura


torta
torta
torta
torta
torta


Escura


Merda
Merda
Merda
Merda
Merda


Pura


Para o Alberto de
Lacerda *
com ternura.


* Alberto Lacerda foi um dos fundadores da revista de poesia Távola Redonda, em colaboração com David Mourão-Ferreira, Couto Viana e Ruy Cinatti. Hei-de tentar aprofundar estes laços de ternura  com E.M. de Melo e Castro. Sobretudo o de e o e ... E/ou a ironia de tudo isto.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adé, apóstolo da "dóci língu maquista"


A Câmara Municipal de Oeiras fez saber com que trovadores irá concluir, no Parque dos Poetas, a sua homenagem aos maiores das Letras Bonitas escritas em português. E, na lista das presenças a haver, entre muitos que nos honram, encontro José dos Santos Ferreira, Adé para os amigos, poeta praticante, nascido à beira do Rio das Pérolas, a dois passos de Sagres, na vizinha Macau, sob o signo do horóscopo chinês que o determinou "amante incondicional do belo, perfeccionista, minucioso".

Era meu Amigo. Esqueçam, por isso, a saudade com que dele escrevo.

Diz Verónica Ganizo, no prefácio de um livro de José dos Santos Ferreira, que foi "um mágico indiano, carregado de aventuras mirabolantes, que, sem o sonhar, teve a culpa dos seus primeiros versos, ao fasciná-lo durante horas":

Co ôlo di nhum brejéro
Pê grándi, braço cumprido,
Sa dedo di mám ligéro
Bariga di nhum nutrido

Pashá fazê nôs olá
Laia-laia di avaria
Tánto palma já panhá
Pa tanto magicaria

Vou aos canhenhos, lembro o homem e o amigo que um dia conheci, à hora do chá, em casa do Stanley Ho dos casinos, na Cidade do Nome de Deus, e aí vai o que dele dizem os documentos pessoais que ficaram e os testemunhos resguardados de tufões, porque espalhados por locais do mundo onde os ventos são delicados e passam ao lado dos arquivos.

Adé (José Inocêncio dos Santos Ferreira) rasgou o olhar para a luz do dia em Macau, em Julho de 1919, filho de Florentina Maria, natural de Macau, e de Francisco dos Santos Ferreira, nado em Seia. Foi o décimo oitavo e último filho das segundas núpcias de D. Florentina, que teve nove descendentes de cada casamento.

Mai
Vôs já falá tanto vez
Qui nadi largá iou oncôm;
Vôs já prometê
Lôgo têm na iou-sa lado
Tudo ora, tudo sempri!

Diz-se que o pai viajou para Macau nos finais do século XIX, como militar. Entretanto, em 1918, viram-no dono de uma mercearia local ("A Portuguesa"), onde se comercializavam "portuguesíssimos vinhos, chouriços, queijos, bacalhau, azeite e feijão, entre outros produtos expressamente importados do Reino, e depois da República." O estabelecimento situava-se na Rua do Campo e era, ao tempo - consta -, o único do género.

As crónicas registam pai Ferreira como um homem generoso que "quando trespassou a mercearia, levou para casa uns restos de feijão e sacos cheios de vales que jamais se converteram em dinheiro", depois do que parte para Timor, sem família e sem cheta. Em cinco anos, contudo, prospera, mas acaba por morrer só e longe dos seus. Adé, filho de pai finalmente abastado, vai crescer assim, rodeado de parcos recursos materiais, cumprindo a vida "nos infinitos".

Inda se eu fosse poeta
Faria versos bonitos
P'ra agradar o meu sobrinho
Que mora nos infinitos, disse-lhe um dia o tio.

Como quase sempre, do nada vai surgir um poeta, segundo Alberto Estima de Oliveira, "intimista, escrevendo por dentro do que o seu olhar alcança. mondando o campo na busca de algo que multiplique a sua fé, religiosidade com que, com o maior carinho, alimenta o sonho e a vida."

Aos sete anos aprende a ler e a contar com uma mestra macaense que cobrava três patacas por mês, e por menino, para ensinar o que sabia. A instrução primária fê-la Adé na Escola Central de Macau, na época, instalada num antigo casarão na Rua do Gamboa, que servia, de graça, em cantina anexa, pequeno almoço e almoço.

Em 1931,matricula-se no liceu, onde permanece até ao 5º ano, estudando com livros emprestados e sem dinheiro para as propinas. Com dezassete anos deixa a escola e procura emprego. Desempenha funções de amanuense das Obras Públicas, a ganhar trinta patacas por mês, e, mais tarde, de fiscal de obras, já contra cento e dez patacas como salário mensal.

Cumpre serviço militar entre 1939 e 1940 e volta ao quartel aquando da Guerra do Pacífico, para novos seis meses de tropa.

Foi da secretaria dos Serviços de Saúde de Macau e, em 1956, assinála-se-lhe a presença como chefe da secretaria do liceu em que estudara. Os rendimentos, todavia, continuam escassos e decide-se, por isso, nas horas vagas, pelo ensino da nossa língua a chineses, pelas traduções do que lhe aparece e pelo mourejar na redacção de jornais.


Em 1964, aposenta-se da função pública e aceita o lugar de secretário da STDM - Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, passando a trabalhar à ilharga do patrão dos casinos, Stanley Ho.


Sabe-se que integrou a Mesa Directora da Santa Casa da Misericórdia durante oito anos e que foi presidente do Rotary Clube de Macau, em 1977/78.


Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique, em Junho de 1979, distinguido com a medalha de Mérito Desportivo, em Fevereiro de 1983 e com a medalha de Mérito Cultural do território, em Junho de 1984, o que é verdadeiramente importante no seu "curriculum" é a obra que nos deixou, em prosa e em verso, sobretudo, em "patois" macaense, que o vai levar ao Parque dos Poetas e o consagra na nossa memória.


Discalço ta vai fónte
Leonor pisá chám esverdeado;
Quelê formosa, ta vai co cuidado.


Na cabéça, unga pote piquinino,
Na mám di prata su támpa;
Cinta di chita vemêlo fino
Co saia di séda estámpa,
Colete di tudo dia vestido,
Más branco que neve caído
Quelê formosa, ta vai co cuidado.


Xale abrí, mostrá piscoço,
Co trança di cabelo dorado
Prendido co listám sedoso.
Di bunita qui mundo ficá ispantado.
Caído nêle tánto doçura,
Pa dá graça sa formosura,
Quelê formosa, ta vai co cuidado.

Até sempre, caro Amigo! Ver-nos-emos. Portugueses.

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