Mostrar mensagens com a etiqueta Selecta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Selecta. Mostrar todas as mensagens
domingo, 27 de setembro de 2015
CANTEIRO DE PALAVRAS - LXVIII - Outono
OUTONO na poesia de Miguel Torga (1966)
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
CANTEIRO DE PALAVRAS - LXVII - A Música
Melhor estava nesta "lota" uma Helena Vasconcelos, que sabe "muito de Arte", mas eu, que sou dos do banco de jardim, por pertencer à "classe" dos não citados, mas dos necessitados, mesmo pobre (ou, se calhar, por isso mesmo) lá me vou atrevendo, que blogue é espaço disso mesmo - sobretudo, como é o caso, quando é de jardim ...
Thomas Mann in DOUTOR FAUSTO:
"Muitas vezes ouvi dizer que um poema não deve ser bom demais para servir de material para uma boa canção. Afirma-se então que a Música se sai melhor da tarefa de dourar a mediocridade, assim como o virtuosismo de um actor se distingue sobremaneira em peças medíocres."
Thomas Mann in DOUTOR FAUSTO:
"Muitas vezes ouvi dizer que um poema não deve ser bom demais para servir de material para uma boa canção. Afirma-se então que a Música se sai melhor da tarefa de dourar a mediocridade, assim como o virtuosismo de um actor se distingue sobremaneira em peças medíocres."
terça-feira, 9 de junho de 2015
Canteiro de palavras - LXVI - O AMOR
Para uma Boa Amiga
Vergílio Ferreira
PENSAR
"O amor é exclusivista, já o disse. À medida que os filhos se multiplicam, atenua-se o afecto dos pais. De certo homem li há pouco ter quarenta filhos de quatro mulheres, há medida, pois, de dez por cabeça. Já não sabia o nome de alguns nem a que mãe pertenciam. Penso em paralelo no autor de muitos livros. Porque deve ser o mesmo. Mas a incontinência paternal pode corrigir-se com um simples acto improdutivo de fazer amor. Como pode um autor fazer amor sem a obra subsequente? Fazer amor em arte é gerar a obra. Porque o onanismo ou o acto contraceptívo é só o imaginá-la. E aí ela não existe. Nem o autor. Mas a obra não é um fim que primordialmente se procure porque é só a consequência de uma inquietação a apaziguar. Como um filho é uma consequência de um prazer a cumprir. Por isso a obra pode surpreender o seu autor como um filho a quem o gerou. Realiza-se uma obra para um mal-estar não ter razão. Ou para esgotar um poço que transborda. Ou para esgotar uma energia de uma procura e que é demais. E ser o absoluto de uma explosão que é logo nada outra vez. É assim."
Miguel Torga
AMOR
"A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.
Depois, a vide do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.
É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência."
Florbela Espanca
INCONSTÂNCIA
"Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer ...
Atrás do sol de um dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando ...
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também ...nem eu sei quando ..."
terça-feira, 30 de julho de 2013
Canteiro de palavras - "Quem sou?" LXV
1867/1930
Raúl Brandão
Há em mim várias figuras.
Quando uma fala a outra está calada.
Era suportável. Mas agora não; agora põem-se a falar ao mesmo tempo.
1888/1935
Bernardo Soares
Quem sou quando sinto?
Que coisa morro quando sou?
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Canteiro de palavras - "Como eu não possuo" - (LXIV)
sábado, 20 de abril de 2013
Canteiro de palavras - umas palavrinhas prévias e... e Germinal, de Zola (LXIII)
Lêem-se os nossos que a escola recomenda ou os amigos aconselham e, duma assentada, sabe-se o essencial, por exemplo, de A Lã e a Neve e/ou da Engrenagem, escritos em língua pátria.
Mas há um outro universo de palavras à nossa espera. Por vezes assustador, pela quantidade de substantivos e verbos que nos propõe, não já para saborear, mas para a refeição completa que impõe eventuais aprofundamentos na abordagem. Compra-se numa feira do livro, por exemplo, o Germinal, de Emílio Zola, e conhecida a sua universalidade, "diz-se-lhe" que espere para "maturação completa" do comprador. E aí está: adquirido o livro em 1970, só agora, em 2013 (sem exageros!...) é que, em recolhimento provinciano, se julga saber o bastante para "comer" 500 páginas de revolta para ... para, no fundo, concluir que o grito se mantém tão utópico quanto, a nível doméstico, outros (A Lã e a Neve, A Engrenagem, por exemplo) o foram em bem intencionadas sínteses.
Entretanto, de Germinal - agora, para que se perceba ...
"(...) Nele agora a evolução era completa: tendo partido da fraternidade enternecida do catecúmenos, da necessidade de reformar o salariato, desaguava na ideia política de o suprimir.
(...) Primeiro, estabelecia que a liberdade se não podia obter senão destruindo o Estado. Depois, assim o povo se apossasse do governo, principiariam as reformas: regresso à comuna primitiva, substituição da família moral e opressiva por uma família igualitária e livre, igualdade absoluta, civil, política e económica, garantia da independência individual pela posse e pelo produto integral dos utensílios de trabalho, finalmente instrução profissional e gratuita, paga pela colectividade.
(...) O Estevão atacava o casamento, o direito de testar, regulamentava a riqueza de cada um, deitava abaixo o monumento iníquo dos séculos desaparecidos num grande gesto do seu braço, sempre do mesmo braço, o gesto do ceifeiro que tosquia a seara madura; e reconstruía depois com a outra mão, edificava a humanidade futura, o edifício de verdade e de justiça, crescendo na aurora do século vinte.
(...) Os escrúpulos da sua sensibilidade e do seu bom-senso iam no enxurro, nada se afigurava mais fácil do que a realização daquele mundo novo; ele tudo previra, falava daquilo como de uma máquina que se comprometia a montar em duas horas, e nem o fogo nem o sangue lhe importavam.
(...) Alevantava-se da terra uma exaltação religiosa, a febre de esperança dos primeiros cristãos da Igreja, aguardando o reinado próximo da justiça."
sábado, 30 de março de 2013
Canteiro de Palavras - (LXII) Eternidade
Vergílio Ferreira
"Não tenhas pena de ser mortal e de não conheceres a eternidade. Porque a eternidade está em ti, no momento incrível de te desprenderes do teu corpo, da sua miséria e estrume, e te pensares a ti mesmo e te sentires ser. Ou quando uma imagem de outrora, luminosa, ténue, se abre ao teu imaginar. Ou quando, fulminante, uma obra de arte. Ou quando, violento intenso instantâneo, o todo de uma mulher. Ou quando pela manhã a terra espera em silêncio que o dia vá começar. Ou quando. A eternidade mora em nós e na vida, deixa
apenas que ela se diga e te habite. E serás mais do que Deus, cuja eternidade passou."
"Não tenhas pena de ser mortal e de não conheceres a eternidade. Porque a eternidade está em ti, no momento incrível de te desprenderes do teu corpo, da sua miséria e estrume, e te pensares a ti mesmo e te sentires ser. Ou quando uma imagem de outrora, luminosa, ténue, se abre ao teu imaginar. Ou quando, fulminante, uma obra de arte. Ou quando, violento intenso instantâneo, o todo de uma mulher. Ou quando pela manhã a terra espera em silêncio que o dia vá começar. Ou quando. A eternidade mora em nós e na vida, deixa
apenas que ela se diga e te habite. E serás mais do que Deus, cuja eternidade passou."
segunda-feira, 11 de março de 2013
Canteiro de palavras (LXI) - E Eça, hein?!...
A EMIGRAÇÃO
"... a importância da emigração é a influencia crescente que ella tem nos costumes políticos dos governos, e nos costumes dos cidadãos. Para o proletariado a emigração é a solução natural da miseria. Para o Estado é o remedio do pauperismo: poucos governos ha com effeito na Europa, que se não tenham valido da emigração como paliativo, indirecto mas efficaz, à densidade de população, aos acrescimos da miseria, às crises industriaes. Este systema de aproveitar a emigração como solução social é a meu vêr innefficaz, innutil, antipolitico: a emigração não diminue a população, não resolve as difficuldades de industria, e só muito indirectamente allivia o pauperismo. Mas os factos são estes: todos os governos, ainda os mais hostis à emigração a teem empregado como medida administrativa nas crises de miseria (...)"
sexta-feira, 8 de março de 2013
Canteiro de Palavras (LX) em Dia da Mulher - Poesia
SER MULHER
Marta Mesquita de Câmara
"Tu sabes lá que triste é ser mulher!...
Qualquer coisa tão frágil como a renda,
Que rasga adonde quer que mal se prenda,
Que por seu mal se prende adonde quer ...
E quantas pelo mundo a padecer,
E tantas sem um braço que as defenda,
Como estrelas em noite má, tremenda,
Se despenham pra nunca mais se erguer!...
Destino de mulher - que dor encerra!
Não há nada tão triste sobre a terra
De sentir tão amargo e tão profundo ...
A mais feliz de todas, por seu mal,
Não passa duma lágrima, afinal,
Correndo sobre a face deste mundo!..."
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Canteiro de palavras LIX - Aquilino Cervantes - hoje!
No cinquentenário da morte de Aquilino Ribeiro, lembra-se aqui, ao ar livre, na ruadojardim, a sua tradução de D. Quixote de la Mancha, de Cervantes (se é que é preciso dizer quem o escreveu o original e, hoje, quem o traduziu para a lusa língua):
"(...) O tradutor não pode ser mais papista que o Papa. Contar de modo absoluto com a pureza de tal leitora de quinze primaveras ou o melindrado rubor de uma solteirona de cuia até aos pés, alma sorvada como os frutos que pendem dos ramos outoniços, seria uma concessão que ultrapassa os limites da arte mais bonecheirona. De resto que é para o leitor a atitude de pudicícia, provocada por uma palavra, não digo frase, senão uma aberração do espírito ou a hipocrisia de uma incrustação, pois que o estado de candura é inaperceptivo por natureza?!
O verbo não é obsceno em si, mas no panorama que entremostra. Quando no D. Quixote se trata de um lugar-comum como expressão de cólera, do desfrute ou da mofa: raios te partam! O diabo te leve! Ó filho de que te pariu sem conheceres o pai! e rosário de palavrões encerrados no patisquíssimo anexim, quem se queima alhos come, não há que atribuir-lhe sentido literal. Se o escritor exumasse, por exemplo, os termos escatológicos de que estão repletos os Cancioneiros, decerto teria cometido obra de pornografia. Vieram a Cervantes de envolta na linguagem corrente, como sucederá ao seu tradutor sendo probo. Praguejava como um granadeiro D. Quixote, vizinho de Argamasilha, e Sancho, bom rústico, que não lhe ficava atrás nesta condimentação do palavreado. Pragueja ainda hoje na Mancha e Campo de Montiel o homem que anda perto da natureza, e terão de praguejar correspondentemente aqueles figurantes do teatro cervantino que hajam de vestir burjaca e falar a nossa língua, tranladados para o teatro português. Não sendo assim seria emasculá-los. Traduzir um livro não consiste apenas em vertê-lo para termos equivalentes noutro idioma, como se lhes fosse congénito (...)"
- Senhor D. Quixote, deite-me a sua benção e dê-me licença que me despeça. Daqui mesmo quero voltar para a minha casa, onde me esperam mulher e filhos. Com eles, pelo menos, posso falar e discutir quanto me venha à cabeça. Nada, nada querer que ande por estes desertos de dia e de noite, feito pato mudo, e que não abra a boca quando me vier o apetite, é o mesmo que sepultar-me em vida. Se ainda a sorte permitisse que os animais falassem como no tempo de Isopete, vá, falava como um burro, falava com o primeiro bicho que encontrasse, e assim se iria passando o meu negro fado. É coisa por demais, que não se pode levar à paciência, andar a vida inteira à cata de aventuras e não receber senão pontapés, manteações, pedradas e sopapos por uma pá velha. Ainda por cima, ponto na boca, sem licença para desatar o saco, como se um homem tivesse nascido mudinho! Não!
- Já te percebo, Sancho - respondeu-lhe D. Quixote. - Rebentas se te não tirar o barbilho que te pus. Pois considera-o tirado, e fala à vontade. Mas com uma condição: a licença acaba logo que ponhamos pé para fora destas serras..."
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Canteiro de palavras (LVIII) - Padre António Vieira
"Sempre fazemos as coisas fora de tempo, e fôra melhor ou não as fazer, ou fazê-las antes. Já padecemos as afrontas do erro, agora padecemos as da inconstância, confessando ao mundo, que os arcanos que considerava nas nossas acções não tinham grandes fundamentos, pois sem grandes causas se mudam."
"O Papa vive, e promete viver; é santo, e faz milagres e santos. Eu trabalho na canonização dos meus, que por muitos, têm dificuldades e por portugueses invejas; também destas se não livram os jesuítas. Se os vejo declarados por mártires, tratarei de me fazer confessor, ainda que não hei-de ser canonizado, posto que faça milagres."
Em 1691, numa carta enviada do Brasil para Portugal, aquando de uma crise na moeda naquele país - "por imprudência dos portugueses":
"Se vossa mercê, pelo que escrevi na frota passada, achou causas para se lastimar do Brasil, as presentes são muito maiores, nascidas todas não das plantas mas das raízes que nessa se lhe secam.
No Rio de Janeiro se abaixou a moeda com tal diminuição que, em um dia, computado o que se possuía com o que se perdeu, quem tinha nove se achou somente com cinco; e o pior é que esse pouco que ficou, ainda se embarca para Portugal, porque dizem tem lá mais conta."
"O Papa vive, e promete viver; é santo, e faz milagres e santos. Eu trabalho na canonização dos meus, que por muitos, têm dificuldades e por portugueses invejas; também destas se não livram os jesuítas. Se os vejo declarados por mártires, tratarei de me fazer confessor, ainda que não hei-de ser canonizado, posto que faça milagres."
Em 1691, numa carta enviada do Brasil para Portugal, aquando de uma crise na moeda naquele país - "por imprudência dos portugueses":
"Se vossa mercê, pelo que escrevi na frota passada, achou causas para se lastimar do Brasil, as presentes são muito maiores, nascidas todas não das plantas mas das raízes que nessa se lhe secam.
No Rio de Janeiro se abaixou a moeda com tal diminuição que, em um dia, computado o que se possuía com o que se perdeu, quem tinha nove se achou somente com cinco; e o pior é que esse pouco que ficou, ainda se embarca para Portugal, porque dizem tem lá mais conta."
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Canteiro de palavras ( LV ) - António Sérgio
| É "gratificante" ver António Sérgio sentado num banco ... |
"Não está a cultura no saber coisas, mas numa certa maneira de saber as coisas; numa certa maneira de as apreciar e as ver. Há quem saiba muito e não seja culto; há quem saiba pouco e que o seja muito. Reside a cultura essencialmente na forma, e não na quantidade do conhecer; tão pouco na variedade do conhecer; tão pouco na novidade do conhecer."
"Conta-se a história de certo devoto asiático que se quedara na birra de que não havia de crer em micróbios. Não, não os havia! Não podia haver tal coisa! Um médico europeu tomou a si demovê-lo, e convidou-o a olhar por um microscópio. O asiático, porém, saiu-se do lance a primor. Pegou no aparelho, galhardo, levantou-o ao ar, cerrou os dentes, tomou impulso - e pumba! Rejeitou-o à parede, com impetuosidade e com fúria. Pronto! Por aquele, pelo menos, já não se veriam micróbios."
"O risco do naufrágio é necessário à rota. Não temamos o erro que arriscarmo-nos ao erro é condição do aceitar e foi por isso mesmo que já se disse algures: mostrai-me um cientista que jamais errasse, e mostrar-vos-ei um indivíduo que nunca descobriu cousa nenhuma."
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Canteiro de palavras ( LIV ) - Ramalho Ortigão
in John Bull
"(...) Tu viajas digna e honradamente para aprender. És o primeiro de todos os touristes profissionais, és o mais completo e perfeito viajante de todo o Mundo. Entras numa cidade seriamente, religiosamente quase, como entra numa biblioteca o estudioso que se quer instruir. Não tens preferências antecipadas nem opiniões preconcebidas. Todos os fenómenos te interessam por igual modo, e com igual escrúpulo os escrituras e relacionas dia a dia no teu caderno de notas. Equipas-te com incomparável perfeição, ninguém tem melhores estojos, nem melhores malas, nem mais confortáveis plaids, nem mais leves capacetes de sabugo, nem mais sólidos sapatos de marcha. A isso reúnes a petulância da personalidade no exercício da tua missão. Pouco se te dá que te apontem ao dedo, que te achem caturra ou maníaco: prossegues impassível com o teu mapa e o teu guia debaixo do braço, o teu binóculo, os teus lápis de desenho e de escrita, o teu álbum, a tua fita de medir, a tua lente, o teu memorandum-book nas algibeiras.
Vês tudo, não passas por alto um monumento, uma galeria, uma colecção, uma curiosidade local. Desces a todas as profundidades e sobes a todas as eminências assinaladas, para ver, e, quando não haja que ver, unicamente para ter lá estado! A casa e o serviço da mais modesta mesa redonda duma estalagem de província toma aos teus olhos em viagem uma importância igual à que teria para ti em Londres um lever ou um drawing-room de St. James Palace ou de Buckingham Palace, na sala do trono forrada de cetim listrado de púrpura tendo no friso esculpida a história da Guerra das Duas Rosas, ou nas antecâmaras em que lentamente perpassam roçagantes de brocado, de ombros nús, costeladas de brilhantes e turquesas, as mais belas mulheres da nobreza da Inglaterra por entre as filas dos criados empoados, de librés agaloadas de ouro em todas as costuras, empunhando os grandes ramos de flores das recepções de gala.
É assim que tu fazes, por todos os países que atravessas, uma provisão enorme e preciosíssima de factos. E todo o facto humano, por mais estéril e por mais pueril que ele pareça, desde que é autêntico e positivo, constitui um documento de observação, sugere uma hipótese correspondente, é o princípio da aplicação do método na sociologia experimental, e sob a acção do espírito correlacionador dum Bukle, dum Stuart Mill, dum Herbert Spencer, ele pode tornar-se o caminho duma teoria política ou o alicerce duma lei social. Essa imensa compilação de notas recolhidas por ti em viagem aos países estrangeiros é indubitavelmente, sem que isso pareça à primeira vista, a mais considerável riqueza intelectual do povo inglês."
"(...) Tu viajas digna e honradamente para aprender. És o primeiro de todos os touristes profissionais, és o mais completo e perfeito viajante de todo o Mundo. Entras numa cidade seriamente, religiosamente quase, como entra numa biblioteca o estudioso que se quer instruir. Não tens preferências antecipadas nem opiniões preconcebidas. Todos os fenómenos te interessam por igual modo, e com igual escrúpulo os escrituras e relacionas dia a dia no teu caderno de notas. Equipas-te com incomparável perfeição, ninguém tem melhores estojos, nem melhores malas, nem mais confortáveis plaids, nem mais leves capacetes de sabugo, nem mais sólidos sapatos de marcha. A isso reúnes a petulância da personalidade no exercício da tua missão. Pouco se te dá que te apontem ao dedo, que te achem caturra ou maníaco: prossegues impassível com o teu mapa e o teu guia debaixo do braço, o teu binóculo, os teus lápis de desenho e de escrita, o teu álbum, a tua fita de medir, a tua lente, o teu memorandum-book nas algibeiras.
Vês tudo, não passas por alto um monumento, uma galeria, uma colecção, uma curiosidade local. Desces a todas as profundidades e sobes a todas as eminências assinaladas, para ver, e, quando não haja que ver, unicamente para ter lá estado! A casa e o serviço da mais modesta mesa redonda duma estalagem de província toma aos teus olhos em viagem uma importância igual à que teria para ti em Londres um lever ou um drawing-room de St. James Palace ou de Buckingham Palace, na sala do trono forrada de cetim listrado de púrpura tendo no friso esculpida a história da Guerra das Duas Rosas, ou nas antecâmaras em que lentamente perpassam roçagantes de brocado, de ombros nús, costeladas de brilhantes e turquesas, as mais belas mulheres da nobreza da Inglaterra por entre as filas dos criados empoados, de librés agaloadas de ouro em todas as costuras, empunhando os grandes ramos de flores das recepções de gala.
É assim que tu fazes, por todos os países que atravessas, uma provisão enorme e preciosíssima de factos. E todo o facto humano, por mais estéril e por mais pueril que ele pareça, desde que é autêntico e positivo, constitui um documento de observação, sugere uma hipótese correspondente, é o princípio da aplicação do método na sociologia experimental, e sob a acção do espírito correlacionador dum Bukle, dum Stuart Mill, dum Herbert Spencer, ele pode tornar-se o caminho duma teoria política ou o alicerce duma lei social. Essa imensa compilação de notas recolhidas por ti em viagem aos países estrangeiros é indubitavelmente, sem que isso pareça à primeira vista, a mais considerável riqueza intelectual do povo inglês."
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Canteiro de palavras ( LIII ) - Hermann Hesse
in Siddhartha - um poema indiano
"Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitem que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, és Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos."
Nota pessoal na folha de rosto do livro: "lido três meses depois de ter deixado para outros peregrinos as lutas diárias pela santidade ..." M.A.
"Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitem que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos. Tu, és Venerável, és talvez um homem à procura, pois, perseguindo o teu objectivo, muitas vezes não vês aquilo que está perante os teus olhos."
Nota pessoal na folha de rosto do livro: "lido três meses depois de ter deixado para outros peregrinos as lutas diárias pela santidade ..." M.A.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Canteiro de palavras LVII - "Agora não é tarde"
Ouvir mensagem anterior.
Bom dia, Pedro Barroso! Lembrar Hermann Hesse in DEMIAN
"Posso (...) criar a ilusão de que desejo, impreterivelmente, ir ao Polo Norte, ou qualquer coisa do género, mas realizar algo com suficiente intensidade, só me é possível se a força que me impele radicar em mim e o meu ser estiver totalmente imbuído dela. Nesse caso, pretendendo alguma coisa que te seja exigido pelo teu íntimo, conseguirás fazê-la, e a tua vontade poderá ser tão bem domada como um bom cavalo."
Bom dia, Pedro Barroso! Lembrar Hermann Hesse in DEMIAN
"Posso (...) criar a ilusão de que desejo, impreterivelmente, ir ao Polo Norte, ou qualquer coisa do género, mas realizar algo com suficiente intensidade, só me é possível se a força que me impele radicar em mim e o meu ser estiver totalmente imbuído dela. Nesse caso, pretendendo alguma coisa que te seja exigido pelo teu íntimo, conseguirás fazê-la, e a tua vontade poderá ser tão bem domada como um bom cavalo."
sábado, 7 de julho de 2012
Canteiro de palavras (LVI) - Ian McEwan
"O concerto" in SÁBADO
"Lá fora, no mundo real, há planos pormenorizados, projectos visionários de reinos pacíficos, onde todos os conflitos estarão solucionados, toda a gente será feliz para sempre - miragens pelas quais há pessoas dispostas a morrer e a matar. O reino de Cristo na Terra, o paraíso dos trabalhadores, o estado islâmico ideal. Mas só na música, e só em raras ocasiões, é que o pano se levanta de facto sobre este sonho de comunidade, invocado em desespero, até desaparecer com as últimas notas."
terça-feira, 12 de junho de 2012
Canteiro de palavras ( LV ) - Sermão aos Peixes
in Sermão de Santo António aos peixes, do padre António Vieira
"(...) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens que hão-de comer, e como se hão-de comer.
Morreu algum deles: vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores, comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador, que lhe tirou o sangue, come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lançol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra."
"(...) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens que hão-de comer, e como se hão-de comer.
Morreu algum deles: vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores, comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador, que lhe tirou o sangue, come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lançol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que cantando o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra."
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Canteiro de palavras ( LIV ) - João de Deus
OMISSÃO
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver a figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa
Tido em conta de um belo original!
A soror costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso ... confesso com tristeza ...
Que enorme, que enormíssimo defeito!
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver a figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa
Tido em conta de um belo original!
A soror costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso ... confesso com tristeza ...
Que enorme, que enormíssimo defeito!
Subscrever:
Mensagens
(
Atom
)



