sábado, 6 de fevereiro de 2010

Subsídios para a História - Macau 95 (XIX)


O prometido é devido:


ENTREVISTA com o Arq. Manuel Vicente


Antes, porém...


Antes, porém, a sequência, até à data, destes Subsídios para a História, que mantive na "reserva" dos meus arquivos:


. Monsenhor Manuel Teixeira, I a VI


. Drª Celina Veiga de Oliveira, de VII a XII


. Dr. Senna Fernandes, de XIII a XV


. António Conceição Jr., de XVI a XVIII




E agora...agora o Arq. Manuel Vicente, enquanto houver para dizer, do muito que, da "sua área", foi aflorado pelos demais entrevistados, e que, neste espaço, não pretende esgotar-se. A História é que há-de acrescentar... Nem que tenham que ser as pedras a fazê-lo. Foram vários séculos!...

Por favor, apresente-se, senhor Arquitecto...

Sou arquitecto desde 1962. O nosso curso era o da Escola das Belas-Artes de Lisboa e, portanto, era um curso comprido, tinha seis anos. Havia uma primeira fase em que ficávamos uma espécie de bachareis. Não tínhamos a tese e, durante dois anos, faziamos uns trabalhos e tinhamos que defendê-los.

Estive em Goa seis a oito meses e ainda sem tese concluída, como bacharel de arquitecto, voltei a Lisboa por força das circunstâncias... e tirei a dita tese.

Vim para Macau, em 1966, e, por motivos puramente familiares, acabei por ir-me embora. Estive 10 anos fora, durante os quais não me mantive sempre em Lisboa. Estive na Madeira, estive na América, onde fiz, na Universidade da Pensylvânia, uma pós-graduação, um mestrado, como hoje se diz e está tanto em voga...

Fiz isso em 68/69, portanto, já com trinta e alguns anos.

Foi engraçado: tinha tido aqui uma vida profissional bastante activa durante quatro anos e, por isso, voltar à escola, depois de já ter tido um "atelier" próprio e, portanto, ter sido patrão, regressar à universidade foi uma experiência agridoce...Não foi como o porco chinês doce e amargo, mas uma experiência muito importante para a minha vida.

Depois voltei para Lisboa, em fins de 69, princípios de 1970, onde fiquei até 76. Quer dizer que vivi empenhadamente o 25 de Abril, não propriamente como militante político-revolucionário, mas como militante profissional.

Trabalhava no Fundo de Fomento da Habitação, onde ajudei a criar um serviço que esteve muito, muito próximo das populações e, portanto, como consequência, a questionar os programas de habitação social herdados do regime anterior.

Tive uma actividade cheia e interessante, mas que, depois, digamos, com a institucionalização progressiva do sistema pós-25 de Abril, começou a ser muito mais burocratizada. Perdi, então, um pouco o interesse nisso e comecei à procura de alternativas, porque não tinha grande vocação para o que se estava a passar. Embora tenha trabalhado sempre para a Administração, mesmo em Lisboa, para a Câmara Municipal, num regime muito corrente antes do 25 de Abril, que era o de ter um emprego público e um "atelier" privado.

Não penso que tenha dado grandes golpes nos horários, mas tudo era compatível... E tinha interesse porque não se ficava reduzido à burocracia: tinha-se sempre uma perspectiva de fora para problemas de dentro.

Também nunca estive em lugares de chefia, nunca fiz parte do quadro. Era um contratado, um "outside", portanto, penso que a minha passagem pela administração pública terá dado algum rendimento e que não é separável do facto de ter mantido uma actividade profissional simultânea.

Mas, realmente, a partir de 76, começou-me a parecer que estava tudo a ficar mais fechado e, portanto, que havia poucas oportunidades para quem não entrasse numa nova organização que era a questão da partidarização da sociedade civil, que, na altura, não se chamava assim... Verificava-se muito a necessidade de escolha de uma determinada zona político-partidária, o que a mim, francamente, não me apetecia, não era a minha vocação... Tinha muito pouco interesse na política como actividade em si mesma. Embora eu seja um animal político como toda agente e tenha as minhas opções claras quanto ao espectro onde me situo. De qualquer modo, isso para mim não desaguava, necessariamente, na filiação partidária, que nunca tive, nem tenho e já seria tarde para ter...

De maneira que Macau apareceu-me nessa altura. Eu já cá tinha estado, admiti a hipótese de voltar (estamos em 1976). Pus o problema a amigos que aqui mantinha. Considerou-se o interesse do meu regresso a Macau. Viria, num primeiro cenário, trabalhar com a Administração.

Em resumo, tudo se conjugou e acabei por resolver instalar-me a 100% na profissão liberal e cá tenho estado desde essa altura, embora mantendo uma presença grande em Lisboa e repartindo bastante, quase equitativamente, nestes últimos anos, as direcções das minhas estadas em Macau e em Lisboa. Acabo por estar quase tanto tempo num sítio como noutro. Com intervalos de mês e meio, dois meses.

Não me sinto, portanto, "despaísado", embora considere que tenho com Macau uma relação forte e importante, antiga. Não estou em Macau indiferentemente, ou não estou em Macau como poderia estar em Vila Franca de Xira, sem desprimor para Vila Franca de Xira. Estou em Macau porque gosto de estar e considero-a a minha sede social...

Enquanto arquitecto, o que é que acha que singulariza Macau das regiões vizinhas?...

Eu diria que é a História e o Tempo. O facto de Macau ser uma implantação com quase 500 anos, leva a persistências de ocupação do território, a formas urbanas, a ambientes urbanos, de que, embora não haja marca físicas em termos de construção, de arquitectura, tão antigas quanto o século XVI ou até o século XVII...

As mais antigas, aqui em Macau, são do século...

Tirando algumas igrejas e a Fortaleza, a maior parte da arquitectura visível é toda deste século. Mesmo aquela que tem um ar ar mais vetusto, mesmo aquela que tem um ar do chamado neo-clássico colonial, se lhe quiser chamar assim, à falta do melhor. São coisas dos anos 20, são coisas entre duas guerras.

O grande surto de desenvolvimento de Macau passa-se aí, passa-se depois dos anos 70. É já muito no fim do século XIX que Macau ultrapassa as muralhas, que se estende para o campo, para aquela zona semi-habitada que havia entre a muralha e as Portas do Cerco, onde se encontravam aldeias chinesas, onde toda a terra era cultivada, havia hortas que forneciam a cidade de frescos e de alimentos hortícolas. Havia um vai-vem de comerciantes que vinham vender os seus produtos ao mercado... Isto até muito tarde do século XIX, isto até à Guerra do Ópio...

Não havia chineses a viver em Macau, havia chineses a virem a Macau vender as suas coisas. Camponeses daqui destas aldeias muito próximas e haveria uma outra autoridade chinesa, casos do mandarim, alfândega chinesa, etc. Havia, enfim, uma ou outra autoridade ou pessoa investida de autoridade...

Então os habitantes de Macau eram...


Eram mestiços, que nem sequer eram mestiços de chineses... Eram mestiços de malaios e de indianos, eram estrangeiros... Famílias de estrangeiros que iam fazer a estação das compras a Cantão, das coisas que exportavam, das coisas que negociavam, do chá, mais tarde, eventualmente, do ópio, não sei... Do que houvesse...

Havia as grandes companhias que se estabeleceram no século XIX e havia os familiares dessa gente, que não ía para Cantão com as malas para fazer compras. Passava-se aqui a época má. Na época mais favorável a navegações, ficavam cá as famílias e eles íam tratar dos seus negócios às feitorias, para Cantão.

Era, portanto, uma população muito diferente da que hoje caracteriza Macau. E mesmo o tipo de miscenigenação e de mestiçagem era até etnicamente diferente do que é hoje.

O Macau que conhecemos é realmente um Macau do século XX. Há um traçado multissecular que acaba por condicionar a própria forma da cidade, para além da própria arquitectura ou da altura em que ela é feita, ou do estilo em que é feita. Há uma forma urbana que a precede, que é sempre mais antiga do que ela. E, realmente, essa acumulação dos gostos e das crenças de cada diferente geração, acaba por ir sedimentando sobre a matriz original que constitui a própria forma da cidade.

Mas não estamos numa pequena Hong-Kong?...

Não. Hong-Kong é uma cidade mais "artificial" do que Macau. É uma cidade mais nascida de gestos de engenheiros, de gestos de planeadores, de gestos exactos, racionais...

Macau é feito "au fur et à mesure". É uma cidade que tem uma origem no século XVI/XVII, é uma cidade que ainda é feita num modo medieval. É uma cidade que é "cosida" ao acidente do terreno, que é feita com a economia de meios, com economia de recursos... Se está uma pedra muito grande a estorvar a rua, desvia-se um pouco essa pedra porque é complicado, caro e difícil tirá-la... Não há grandes planos traçados. O Macau dos traçados é o Macau do fim do sécúlo XIX, do princípio do século XX. De rasgar avenidas, abrir rectículos ou quadrículas, das chamadas avenidas novas, da Horta e Costa, por exemplo. Tudo isso são gestos da engenharia militar, sem nenhuma conotação depreciativa.

São grandes gestos de grande engenharia militar que, realmente, ocupam o território, marcando-o racionalmente do ponto de vista de projecto. Ainda é a escola dos filhos ou dos netos do traçado pombalino, da rectícula iluminista da Baixa Pombalina. Ainda é a grande escola da engenharia militar portuguesa. É, realmente, a escola do pós-Terramoto, da reconstrução pombalina e que, não só faz Macau como uma quantidade de cidades em África, como, em limite, traça a Nova Goa, Pangim, em Goa. São operações de ocupação do território, de ocupação física.

(cont.)














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