sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Subsídios para a História - Macau 95 (VI)


HOMENAGEM PÓSTUMA


ENTREVISTA com Monsenhor Manuel Teixeira (cont.)



Padre, não gostaria de abusar, mas se pudesse caracterizar o dia-a-dia de Macau, enquanto espaço físico e humano, que aspectos nos deveríamos apressar a registar para europeu ver?... Os costumes, as tradições, curiosidades... Fale-me disso...

Nós aqui em Macau, como vê, somos uma parcela mínima metida no mar chinês e, portanto, chega aqui um português e não nota nada de português. Começa com a língua. Chega ali, quer nomear um hotel, ninguém o entende. Estamos perante um mundo diverso do nosso. Vai pelas ruas é um formigueiro chinês, não encontra um português. É uma cidade chinesa, inteiramente chinesa, dirigida por um governador que é português -e mais nada... É isto: lojas chinesas, língua chinesa, tudo chinês...

E tradições chinesas que sejam curiosas e tenham captado a atenção dos portugueses...

Os portugueses respeitam tudo...

Mas essa coisa de passear pássaros, por exemplo...

Todas as manhãs, com as gaiolazinhas a passear. E depois o fung soi (vento e água). Qualquer empresa, qualquer obra que se faça tem que ter bom fung soi. É a felicidade. De tal maneira isto influi que até as autoridades portuguesas, junto ao palácio do governo, puseram uma espécie de peixe que é o fung soi. Por exemplo, o senhor quer construir uma casa. Não o pode fazer sem chamar o mestre do fung soi. A disposição dos quartos tem que respeitar o fung soi. Esta a grande superstição aqui da terra. Já os portugueses começam a acreditar nisso...

Mas viver próximo de um cemitério é coisa que não agrada a um chinês...


Não. Mas também há o fung soi do cemitério. Por exemplo, na Taipa: o melhor cemitério de toda a China e de Hong Kong é o da Taipa, porque tem um bom fung soi, tem vento e água. E aquelas sepulturas vendem-se a 100 000 patacas cada. Os ricos de Hong Kong são sepultados ali.


Padre, tem uma ideia de qual é a população fixa de Macau?


Meio milhão de pessoas.


Percentualmente, a população chinesa é...


Mais de 90%!...


E naturais de Macau?


Talvez uns 5 000... Ao todo, os portugueses serão uns 10 000...


Uma pergunta de "fait-divers": acha que depois de 99 continuarão a existir casas de penhores em Macau?


Continuarão, porque eles vão respeitar o jogo e o jogo é determinante: se não houver jogo não há Macau... Macau morre sem o jogo. Eles, então, empenham tudo.


Lembra-se de alguma história de jogo?...


O jogo é terrível. É alimentado, sobretudo, pelos chineses e pelos estrangeiros, porque os portugueses estão proibidos. Não podem jogar, a não ser no Novo Ano Chinês. Os funcionários públicos...


Vêm chineses de Hong Kong, jogam toda a noite e saem depenados... Por exemplo, veio aqui ao hospital de S. Januário uma inglesa dar sangue para ver se ganhava umas patacas para voltar para Hong Kong...Tinha perdido tudo.


No jogo há indivíduos que emprestam dinheiro, que estão ali perto dos jogadores que acabam por perder tudo. "Quanto é que quer? Cinco mil patacas?... Cá tem. Dê-me o seu passaporte!..." E apanham-lhe o passaporte. Tem que pagar. Se não paga tem que telefonar para Hong Kong a dizer à família que pague. E se não pagar, matam-no. Ou raptam-no. Levam-no para uma "casa", até a familia pagar.


Os chineses são de uma invenção extrordinária. E tudo por causa do jogo: consta que um china queria patacas, fingiu-se raptado e mandou dizer à família que lhe exigiam 60 000 patacas e que a mãe fosse entregar essa quantia junto à Gruta de Camões, em tal dia, a tal hora... Tudo por causa do jogo. É claro a mãe participou à polícia e a coisa abortou. Os tipos foram presos.


Mas veja o desgosto que deu à mãe... O jogo dá cabo de tudo...


Padre, imagine que está colocado perante uma assembleia de jovens portugueses, aqui, em Macau. Vamos imaginar um recinto e que o padre vai falar a esses jovens, já com entendimento para perceberem claramente o que lhes vai dizer. Faça a homilia para esses jovens...


Eu falar-lhes-ia da minha experiência e dir-lhes-ia o seguinte: estava em Singapura quando ali mudou o regime e como todos perceberam que era um regime comunista, fugiram, mas voltaram todos. Agora em Macau não deve fugir ninguém. Tenham esperança, tenham confiança no futuro, porque Macau, Hong Kong e Zuar vão ficar muito melhor do que antes, do que Macau sozinho. Vão ser os três maiores empórios da China, juntos, autorizados a continuar o sistema capitalista durante 50 anos. Nestes 50 anos muita coisa há-de mudar. E o comunismo também...


Padre, agora está situado no mesmo púlpito e a multidão é de chineses. Fale-lhes...


"Lamento muito que nós, que fundámos Macau, nos vamos embora... Nós gostamos da China, gostamos dos chineses, gostamos de vós e vamos embora com imensa pena. Lamento muito isto, mas o que tem que ser, tem que ser e...acabou-se!..."


Quando Lu Ping - primeiro representante do governo chinês em Macau (nesta coisa da transição, há pouco tempo...) foi nomeado para aqui, ameaçou: "nós vamos acabar com todos os vestígios colonialistas em Macau..." Quando li aquilo (escrevo todos os dias um artigo no jornal), escrevi o seguinte: "diz Lu Ping que, quando tomarem Macau, em 1999, vão acabar com todos os vestígios colonialistas (até eu gostaria que entregassem esse artigo ao sujeito...), Eu concordo, não só 100, mas 200% com o que o sr. Lu Ping disse, porque, quando nós viemos para Macau, encontrámos três cabanas de pescadores e o resto foi feito pelos portugueses... De maneira que o senhor leva as três cabanas e deixa os vestígios colonialistas... Nós ficamos com o nosso património colonialista e as três cabanas são vossas..."


Que obras tem o padre, neste momento, em gestação?...


Tenho oito obras no Instituto Cultural de Macau há oito anos, por publicar...


Acerca de que temas?...


História. A melhor obra, que deviam ter publicado há muito tempo, é Macau no século XIX e no século XX. Já publiquei Macau no século XVI, Macau no século XVII, Macau no século XVIII. Por exemplo, Macau no século XVIII, disse o doutor João de Deus Ramos, que foi embaixador de Portugal em Pequim, e agora está na Casa de Macau, em Lisboa, e na Gulbenkian, que: "é o melhor que se escreveu sobre Macau." No seu conjunto, é um trabalho que começa em 1509, no primeiro contacto de Diogo Lopes Sequeira, em Malaca, com os chineses, até hoje. Ano por ano.


Outra obra é a Igreja em Cantão, a história da igreja de Cantão, que foi fundada por nós, até hoje. Depois tenho outras obras secundárias.


Consegue dizer-me quantas obras publicou até à data?...


123!!!



(Esta entrevista com Monsenhor Manuel Teixeira, em princípio, vai terminar no próximo dia 10 de Janeiro deste 2010 d.C.. Não quero, porém, que isso aconteça sem aqui deixar uma palavra de saudade pelo Monge que conheci há já nem sei quantos anos, em Macau, a avançar na minha direcção, do fundo de um amplo e desabitado claustro caiado de branco, onde quase se confundia a sua alva e magra figura, bordada de longas barbas, para o abraço fraterno que jamais esquecerei. Que repouse em paz em Freixo de Espada a Cinta, ou no Paraíso que dizem existir para os que, como ele, acreditaram e ajudaram a construir Portugal.)

2 comentários :

  1. Amigo Marcial,gostei imenso as reportagens com o Monsenhor Manuel Teixeira, somente um reparo eu tenho dificuldades em ler certas partes ,estes que são escritas em tons de azul o verde palido.Muitos parabens e continue assim Herbert Matzinger

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  2. Caro MTZ
    É bom saber os amigos connosco e ler-lhes as palavras amáveis que nos deixam. Bem-hajas,Herby!
    És o "estrangeiro" mais português que eu conheço.
    Ainda estou para saber como é que das valsas fizeste viras...
    Quanto ao azul do rodapé da entrevista, percebo, mas perdoa-me o mal que faz, ao bem que sabe escrever na cor do céu a propósito de um homem que no céu deve estar...É uma excepção. Um abraço. MA.

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