terça-feira, 9 de março de 2010

Subsídios para a História - Macau 95 (XXIX)

ENTREVISTA com Carlos Morais José (cont.)

Falou, a certa altura, no aeroporto.É realmente um assunto de uma grande actualidade. No entanto, está do lado de lá um aeroporto que dizem para voos domésticos, mas a modos que pode vir a receber o Concorde e, numa área geográfica muito pequena, parece que já prolifera esse tipo de infra-estrutura... O que é isto?...

Penso que o aeroporto em Macau é uma boa coisa pela autonomia do território. Como português, mais uma vez digo que o aeroporto, a mim, não me satisfaz... Não quero sair daqui, passados quatrocentos anos a dizer: "deixámos um aeroporto... Formidável!..." Porque é o aeroporto é um sítio anónimo...

Agora, a estratégia da China, em relação ao tráfego aéreo nesta zona ... De facto, o presidente da Câmara de Zuhai é uma pessoa extraordinariamente ambiciosa: quando faz o aeroporto, fá-lo dezenas de vezes maior do que o de Macau, quer no que respeita ao terminal, quer em termos de pista, ficando assim, na verdade, com condições muito diferentes das do aeroporto de Macau.

Se tiver sorte, o aeroporto de Macau movimentará cerca de três milhões de passageiros por ano. Ora, o futuro aeroporto de Hong-Kong vai movimentar cerca de 56 milhões... Quer dizer, isto não é nada em relação ao tráfego aéreo da região. Pode haver uma complementaridade...

O aeroporto de Macau é, pelo menos, importante para "levantar o moral". No entanto, no que se prende com a presença portuguesa eu não esgotaria aí o esforço...

Estamos a colocar um "padrão dos Descobrimentos"?...

Não, não...as companhias são todas chinesas... Aquilo é um aeroporto chinês. Quem vai ganhar dinheiro com aquilo é a China. Nem eles permitiriam que fosse de outra maneira...

Espaços de confraternização entre macaenses e portugueses aqui em Macau?...

Muito poucos... Têm pouca expressão...

Para os chineses, se é que eles pensam nisto, somos o povo do garrafão, somos o povo dos descobrimentos... O que é que somos para eles?...

A maior parte dos chineses está em Macau, provavelmente, sem quase saber que há aqui portugueses... As estatísticas revelam que 56% dos chineses não sabem o nome do governador, nem sabem quem é... Quarenta e tal por cento tem uma ideia que há uma assembleia legislativa... Portanto, mais de metade está noutra... Está no seu mundo...

Então, quando as coisas mudarem, quase não dá por isso...

Eles vão dar por isso, mas vão dar por isso pela negativa. Vão notar quando começarem a acontecer coisas que agora não acontecem...

Por exemplo...

Claro que haverá muito mais controlo policial, muito mais controlo das pessoas que querem ter ideias e  fazer coisas...

Seremos heróis?

Penso que, no ano 2010, eles vão lembrar-se de nós. Os de Macau vão necessitar de se lembrar dos portugueses para reforçar a sua identidade, em relação ao resto da China. E acredito que, aí, os portugueses poderão vir a ser muito bem-vindos.

Admito que venha a haver uma fase de reacção em que os portugueses passem mal... Vão ter que suportar a euforia do regresso de Macau à China, do orgulho chinês. Macau está hoje englobado num pacote, cujo objectivo último é Taiwan.

A China quer, no ano 2000, voltar a ser a Grande China, para, no século XXI, ser a maior potência mundial.

Mas o que é isso do crescimento chinês?

O crescimento chinês é a inevitabilidade da história dos números... Os chineses têm um grande território, têm a maior população mundial...

É crescimento e/ou desenvolvimento?

Os conceitos de desenvolvimento que se usam na Europa nem sempre são aplicáveis aqui...

Fala-se, entretanto, em produtos baratos, em mão d'obra intensiva. Não sei se é arma de arremesso do Ocidente, mas a verdade é que se refere com frequência o desrespeito de Direitos Humanos por parte da China...

Como no tempo da Revolução Industrial na Europa. Não se esqueça que a China é um país maioritariamente agrícola e que está, neste momento, a sofrer aquilo que a Europa sofreu no século XIX, que é a imposição de um determinado tipo de capitalismo, com uma moldura autoritária. Não vamos ter ilusões a este respeito.

Quer dizer, o que se está a passar na China é um desenvolvimento capitalista, crescente, selvagem, baseado no excesso de mão d'obra e, sobretudo, nas migrações. Ou seja, há massas migrantes na China que chegam às grandes cidades, que as invadem e servem de mão d'obra barata. Como aconteceu com os ingleses, em Inglaterra, no século XIX.

É o que se está a passar na China um século depois. Agora, com as conseqùências e com uma rapidez que não era possível no século passado.

A Europa precisou, talvez, de 50 anos para uma coisa que a China vai fazer, provavelmente, em 5 ou 6... E com o desastre que isso poderá vir a constituir para o próprio país... Vamos lá ver como é que os chineses vão conseguir resolver esta contradição, que está expressa no próprio expressão que eles aplicam: economia socialista de mercado.

Ora bem, isto é uma contradição, mas os chineses vão tentar resolvê-la. E penso que, se calhar, vão consegui-lo.

Todos os regimes asiáticos são autoritários. Sobretudo, os bem sucedidos, como é o caso de Singapura, como é o caso da Malásia, da Indonésia. São regimes musculados, são regimes não democráticos, se se quiser, no sentido ocidental da Carta dos Direitos Humanos. É assim...

Face às mudanças de 99, quais são as expectativas dos macaenses?...

Isso é um bocado complicado... Os macaenses também não são uma "coisa" una... Entre os macaenses, para simplificar, existem dois tipos de pessoas: os que são originários das melhores famílias da terra e os que têm origem no casamento do soldado com a tancareira (o nome tancareira vem do nome de um barco desta região). E porquê a tancareira?!... Porque a tancareira que vive na água, como se fosse cigana...

O "patois" macaense nasce aí?

O "patois" macaense  nasce do português, influenciado pelo chinês. Melhor: repare, a maior parte das famílias macaenses, durante dezenas de anos, não teve sangue chinês. Hoje já tem. Porquê? Porque os portugueses, íam buscar mulheres indianas ou malaias e não chinesas. Os chineses não deixavam as filhas casar com portugueses. Deixava a prostituta, deixava a tancareira... Essa, sim, podia casar com o estrangeiro, mas já era uma espécie de sangue sem casta, da camada mais baixa da sociedade. Nenhum mandarim daria uma filha a um estrangeiro. Ainda hoje pode ver-se isso: nenhum tipo rico chinês casa uma filha com um ocidental. A não ser que a filha vá estudar para Oxford e depois lá conheça um... Mas não são situações bem vistas...

O chinês é racista?

É. Claro...A China é o único país que tem, como justificação da atribuição de nacionalidade, o sangue. Você se tiver sangue chinês, é chinês. Se não tiver, nunca será chinês. Se eu casar com uma chinesa não me torno chinês por causa disso, nem em mil anos, porque não tenho olhos como eles...

Prédios de 20/30 andares desocupados em Macau. O que é isto?...

Sei lá... São problemas do imobiliário...

Há quem diga que as rendas descem por força desse estado de coisas... É o benefício da especulação?

Houve especulação, só que, da China, vieram ordens  para "arrefecer" o mercado imobiliário. A partir daí, o dinheiro deixou de chegar... Mas eu não sou a pessoa indicada para lhe falar de questões económicas.

Mas não estou a querer falar de economia. Estou a falar das consequências sociais...

As consequências sociais são tipos a perder dinheiro e outros a ganhar... Quanto ao tecido urbano, já está completamente estragado por causa da especulação que houve "no passado". Digamos que este arrefecimento, este "stop" da China veio há uns dois anos... Foi aí que parou a construção, porque até aí era aterrar, construir, aterrar, construir...

Ruínas de S.Paulo com centro comercial à frente?... Habitações coloniais, património português, e a vontade de demolir aquele prediozinho que só tem um piso ou dois parta lá fazer um arranha-céus...

Tenho a mesma curiosidade em saber o que é que se vai passar depois de 99 em relação a isso. Não acredito que destruam as ruínas de S. Paulo, mas determinados prédios...acho que sim, que vão abaixo...

Aceitariam um anexo à Declaração Conjunta falando concretamente na manutenção do património de origem portuguesa?

Existe um compromisso da China que é respeitar o travejamento jurídico de Macau durante 50 anos. Portanto, há prédios classificados pelas Leis do Território. Agora se se reunir uma comissão de peritos e disser "desclassifica-se este prédio", o que é que se pode fazer?!... O mesmo que se fez em Portugal... Os governos não entendem que património não é dizer "está classificado"... É preciso dar vida a esse património, fazer a população utilizá-lo, porque se a população o não fizer não lhe dá valor. Se isto estiver vivo, então, ninguém vai deitá-lo abaixo.

O Museu Marítimo de Macau pareceu-me, numa perspectiva de futuro, com alguma preocupação de equilíbrar as mensagens...

É, na verdade, uma estrutura bem conseguida. Os chineses adoram esse museu. Porquê? Porque conta a vida deles...

É um acto de inteligência...

É! Só assim que podemos estar aqui... E o que é que nós podemos dar aos chineses? Não podemos estar a falar de nós. Temos que falar deles, mas pondo por baixo os nossos valores... Essa é que é a estratégia.

Pareceu-me uma síntese com futuro...

É... O caminho é esse. Eu posso contar a um chinês a história da China e da sua própria cultura. Se for eu a contá-la, vou estar a dar-lhe uma base de valores, de maneiras e métodos ocidentais que o vão enriquecer.  Tem que ser a aposta.

Mais do que o monumento que é posto "no meio da água", essa é a estratégia...

Penso que sim. Se eu fosse governador de Macau, começava por fazer o seguinte: encomendar às universidades europeias meia dúzia, sete, oito, dez estudos sobre determinados problemas de Macau. Internacionalizava a problemática. Fazia de Macau um local de interesse mundial. Isto é, um laboratório, isto é, uma coisa pequena, isto é o ideal para qualquer sociólogo, antropólogo...  E depois, então, avançava com políticas, então avançava com maneiras inteligentes de dar a Macau características que nos permitissem cá estar e permanecer depois de 1999 - para sempre!
(cont.)

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