sexta-feira, 19 de março de 2010

Subsídios para a História - Macau 95 (XXXIV)

ENTREVISTA com o Dr. Leonel Miranda

Peço-lhe uma sumaríssima apresentação de si próprio...

Falar-lhe de mim... Sou um português como todos os outros. Nasci numa terra da Beira Alta, mais propriamente, Vila Pouca da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital.


Tive a infância que, mais ou menos, as pessoas de todas aquelas aldeias onde não havia grandes condições de estudo e progresso tinham.

Estudei, fiz a tropa, depois empreguei-me nos CTT. Mais tarde, fui para o Banco Fonsecas & Burnay. Daqui saí para, durante algum tempo, exercer funções de director financeiro da Radiotelevisão Portuguesa. E agora cá estou em Macau.

Encontro-me aqui vai para nove anos. Tenho desempenhado várias funções e, actualmente, sou coordenador do Gabinete de Planeamento e Cooperação do Governo de Macau e, por nomeação deste, presidente da comissão executiva da AIR MACAU, que é a companhia aérea do território, que vai operar, a partir de Novembro, no aeroporto internacional.

Entremos, então, em Macau. O que é que singulariza o território das regiões vizinhas?


O que singulariza Macau das regiões vizinhas é, desde sempre, em termos económicos, ser um entreposto comercial entre o imenso continente chinês e outras regiões asiáticas e, nos anos mais recentes, sobretudo, já na década de 70, um grande entreposto comercial nas relações da China com a Europa e os Estados Unidos.

É este papel comercial, este papel económico, que distingue Macau das outras regiões chinesas adjacentes, porque Macau é uma cidade aberta, foi sempre uma cidade de comércio, e, como tal, teve sempre uma posição liberal, uma posição de liberdade, aberta.


De resto, Macau foi sempre uma cidade liberal, onde, por força do comércio e da economia, se cruzaram civilizações, povos, culturas, formas de pensamento diferentes. Aliás, cada vez mais essa vertente e essa posição se acentuam, sobretudo, a partir do momento em que a República Popular da China inicia as reformas do seu sistema económico, no fim da década de 70.

Sobretudo a partir dessa data, o papel de Macau, de abertura ao mundo e de ponte entre o continente chinês, a Europa, os Estados Unidos, em suma, entre o continente chinês e todo o mundo exterior, tem-se acentuado cada vez mais. E estou convencido de que vai continuar a acentuar-se e que o território vai continuar a ser a grande porta de entrada dos europeus na China e a grande porta dos chineses para a Europa e o mundo exterior.


Estamos a falar apenas do período pós-Guerra do Pacífico ou estamos a falar da história de Macau?


Macau foi sempre um porto aberto, um porto franco, um local de comércio, um local de transacções comerciais. Macau teve durante longos, longos anos, uma economia essencialmente mercantilista. Desde, praticamente, o início da chegada dos portugueses.

Hoje é já uma economia de produção, mas não deixa de ter essa vertente mercantilista, que também  não é só em transacção de produtos, mas de serviços.


Com efeito, a economia de Macau é uma economia que se acentua cada vez mais na sua vertente de serviços e essa  também é uma área que põe toda esta população em contacto com o exterior.


Acha que Portugal em Macau tem sido missão, pimenta, aventura, o quê?...


Tem sido um pouco de tudo isso. Aliás, os portugueses têm um pouco de tudo isso. Os nossos emigrantes têm uma atitude de um pouco de aventura, um pouco de missão, depois de estarem aqui ou noutras regiões...Vai, por certo, encontrar agora o mesmo na Austrália, como noutros países, noutras comunidades com que terá contactado.

Os portugueses em Macau têm tido um papel enorme, nem sempre devidamente avaliado, mesmo em Portugal, mas têm tido um papel extraordinário, porque este espaço, com os seus, actualmente, cerca de 22 km2, é um milagre económico no mundo, como há pouco tempo lhe chamava a revista americana "Fortune".


Não se conhece outra experiência onde, numa área de 22 km2, se produza tanto como em Macau. E isso deve-se, evidentemente, à comunidade chinesa, que é maioritária, trabalhadora e dedicada. Mas deve-se também, e muito, à acção dos portugueses que estão aqui numa postura de progresso, numa postura de trabalho e imagem positiva do que foram os seus antepassados e do que são hoje os portugueses.

Há, entretanto, quem considere que, os últimos dez anos, têm sido uma espécie de caldo verde, que reconforta, mas não alimenta...


Essas palavras têm uma deficiência de avaliação do que está feito e do seu significado. Hoje, a nível económico, vivemos um período de grandes transformações. O problema é que - e eu noto que, em Portugal, é enorme - muita gente ainda não percebeu as transformações brutais que se deram no mundo desde o fim da década de 80.

Desde essa altura, toda a economia mundial evoluiu de uma forma descontínua, o que quer dizer que houve quebras, que houve pontes que se quebraram para se criarem outra novas.


Como sabemos, tivemos o desmoronamento da ex-União Soviética, a queda do Muro de Berlim, as transformações tecnológicas no domínio das tecnologias de informação, num mundo agora completamente diferente do que existia no início dos anos 80, em termos económicos e até de gestão...

O mundo hoje é global, a economia é global... O comércio, as empresas globalizaram-se.


O que está a ser feito em Macau, o que foi feito em Macau nos últimos dez anos, é de uma valia extraordinária para preparar o território para o futuro.


Com a Declaração Conjunta, que é um documento assinado por Portugal e a República Popular da China, ficou estabelecido o quadro futuro do território.O quadro político e o quadro institucional que estabelece que, durante 50 anos, para além de 1999,  Macau manterá, além do mais, o sistema económico e social, que tem actualmente.

Entretanto, a República Popular da China, com o início das reformas, transformou-se de uma forma bastante acentuada.

Conheço a RPC há quase 9 anos. Actualmente, a China é completamente diferente. O que tem estado a ser feito nos últimos anos em Macau é precisamente preparar o território para esse  mundo económico global e para uma economia que será, sem dúvida, a grande economia mundial do próximo século. Acima da europeia, da dos Estados Unidos ou do Japão.

O que foi feito em Macau, o que está a ser feito, é preparar o território para sobreviver num mundo em transformação, quer na China, quer no contexto global da evolução social, política e económica.

Todos estes instrumentos, a nível do ensino, da saúde, das infra-estruturas, dos transportes, do ambiente, do "hardware", do "software"... Tudo o que tem sido feito tem uma valia enorme, é uma alavanca poderosa para o progresso de Macau.

(cont.)

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