quarta-feira, 3 de março de 2010

Subsídios para a História - Macau 95 (XXVI)

ENTREVISTA com a Drª Margarida Rato (cont.)

Quais são as expectativas dos macaenses relativamente às mudanças de 1999?

A comunidade macaense, por um lado, também tem culpa por aquilo que aconteceu: não soube fazer sobressair o seu papel e que foi, por força das circunstâncias, um bocado subalterno. Há sempre excepções, é evidente, mas o papel que os macaenses desempenharam, e pontuamos agora a questão da língua, de que falámos, foi o de veículo de transmissão entre a comunidade portuguesa e a comunidade chinesa, mas deixaram-se ficar por esse papel. Com excepções.

Nós deveríamos ter transmitido a nossa língua, mas aprendido a deles para que houvesse comunicação...

 O problema está em que se deixaram ficar um pouco por esse papel.  Não tiveram  preocupações - e se calhar agora vamos entrar no campo do ensino - com a sua própria formação, em dar o salto (sempre com as excepções presentes). Limitaram-se a esse papel e assim foram vistos pela comunidade chinesa. Não souberam actuar no sentido de terem um papel mais relevante dentro da comunidade portuguesa e chinesa.

Diz-se que o relacionamento, e não sei a que nível, porque aí a língua que eles falam é a chinesa, nunca foi muito bom... Se isso é verdade, e penso que nalguns casos será, pode ser um óbice e vai depender da maneira como as pessoas se sentirem em Macau como macaenses, o ficar ou não ficar. A sua formação , a sua capacidade de contribuir para este território, são tudo aspectos que vão pontuar no ficar ou não ficar. A maioria pretende regressar...

E os portugueses continentais?...

Sabe qual é o problema?!... O problema é o seguinte: a maior parte da comunidade "de lá" está aqui na Administração. Portanto, não vai ter possibilidade... Isto é, julgo que poderá haver um leque muito grande a dizer "eu gostaria de continuar em Macau", mas isto não é só a vontade de cada um, é um vontade que tem a ver, neste momento, com o Governo e com a República.

As pessoas têm um relacionamento muito bom com a comunidade chinesa e o contrário também é verdade. Não vai  haver problemas. Só ao nível da Administração, porque é natural que a China queira fazer a tal localização e para a fazer já disseram como é que a gostavam de ter... Evidentemente que os lugares-chave vão ter todos que passar...  Vamos ver se os locais que estão hoje a tomar conta dos lugares e a aprender, são, ou não, aqueles  que vão ficar com os lugares... São incógnitas...

Então quando hoje está numa paragem de autocarro, com uma fila de macaenses ou de portugueses, e vem um chinês e passa à frene de todos, sem justificação, e entra para o autocarro, não é um problema de conflito racial, mas de educação pura?...

Mais do que de educação, é um problema de sobrevivência...

Explique, por favor...

Para mim é um problema de sobrevivência...Ele foi ensinado assim. São milhões... Para a nossa cultura - e é aí que acho que tem haver o tal entendimento... Para a nossa cultura existe uma regra: há uma bicha para entrar no autocarro, quem primeiro chega, primeiro entra, quando não houver lugar, fica-se à espera do próximo. Para um chinês não há essa regra... Ele próprio é ultrapassado por outro chinês que esteja na bicha...

E, por outro lado, para ele isso não tem significado nenhum. A conotação que tem para nós não tem para ele. Tanto que se nós chegarmos ao pé dele e o agarramos por um braço, dizendo que estamos primeiro, ele fica espantado... Não é por não perceber português, que se calhar até percebe. O que ele fica é espantado com a nossa reacção porque está habituado, em termos de comunicação chinesa, de milhões de pessoas, a não perceber, a não ligar, a uma reacção desse tipo.

Eles sabem que é dada a mesma oportunidade a todos, e que têm todos uma tijela de arroz... "Entrou no autocarro? Teve mais sorte do que eu, mas para a próxima vou ser eu..." E, se reparar - isso acontece na China, acontece em todo o lado - eles não reajem uns com os outros.

E nós? Se vier um português e entrar primeiro do que eu que estou primeiro na bicha?!... A primeira coisa que digo, delicadamente, é: "eu estava primeiro".

Eles não o dizem uns aos outros. É a forma de estar.

Como é que acha que a comunidade católica vai conseguir sobreviver no meio de budistas e outros?...

O papel dos jesuítas aqui foi fundamental. A comunidade macaense é muito, muito religiosa. E vai ter aqui os seus padres. Eu tenho uma visão muito simplista destas questões, mas penso que vão manter-se...

Para já, são tolerados, bem tolerados pela comunidade chinesa.

Penso que o catolicismo vai continuar. A igreja vai ter essa preocupação. Aliás, nós sabemos que a igreja católica também está na China. Tem, por isso, todas as condições para prossseguir em Macau.

Outro assunto bem diferente, mas que penso ter força em Macau: qual é o peso da confecção e do vestuário na economia do território?

Setenta e tal por cento. Continua a ser a indústria com mais peso na economia local.

Agora a senhora vai subir a uma tribuna, é mãe, e a assitência é de juventude portuguesa. O que é que lhe diria nesta hora de transição?

Portugueses da República e macaenses?

Exacto.

Alertava-os para a necessidade, que eles próprios sentem, de haver aqui espaços de convívio e lazer (eles têm-nos...) para a comunidade portuguesa.

Portanto, chamar-lhes-ia a atenção para os cuidados que, enquanto jovens, têm que ter.  Cuidado com os seus tempos livres. Porque Macau pode ser um campo de amplas liberdades, amplos conhecimentos, enriquecimento como nenhum outro sítio pode dar, mas pode ser o sítio da degradação, se as pessoas quiserem...

Faria ainda uma chamada de atenção para uma convivência normal, de entrosamento, aproveitamento óptimo dos tempos livres, das condições que isto tem, das viagens que isto oferece, das condições de estudo existentes.

Têm o liceu que é fenomenal. Portanto, uma preparação sempre com a visão do que é a família, numa perspectiva de futuro. Para ficarem ou para irem.

Então e se a assembleia fosse de chineses?

Era capaz de lhes falar também disso. Juventude é juventude em todo mundo e está sujeita às mesmas coisas que a juventude portuguesa está. Se calhar, a um outro nível, com uma maior facilidade local.

A comunidade chinesa também aqui tem outros perigos... Que se calhar não são seitas. Faz parte da sua maneira cultural de estar. É impossível lidar contra isso. Falar-lhe-ia, talvez, na possibilidade que Macau oferece de se arredarem desses perigos.Da possibilidade que Macau lhe dá, aqui, de ter, de facto, uma vida óptima, com Hong-Kong, Japão, tudo à porta. É um local de maior desenvolvimento futuro, onde existem as melhores condições para a sua própria formação. Não iria mais longe.


Os próximos "Subsídios para a História" virão do jornalista "free lancer" (antropólogo de formação), Carlos Morais José

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